Apareceu ontem uma história trágica n’O Comércio do Porto e noutros jornais também. Não sei se está bem contada ou não. Hoje há desenvolvimentos.
Eu já estou mais ou menos habituado a sofrer e assistir pessoalmente a situações de mau atendimento nos hospitais (e de bom também, não estou agora a fazer estatísticas!). Já criei alguma capacidade de distanciamento, de “anestesia”. Não posso resolver todos os problemas do mundo; tenho que escolher os poucos que consigo ajudar a ultrapassar com o meu esforço.
Contudo, esta situação é muito estranha e especialmente triste. "Triste" é o termo. Pelo desamparo evidente de quem, numa situação daquelas em que se sentia mal atendido, não tem a formação suficiente para tomar a iniciativa de procurar outro hospital, um médico noutro lado qualquer, qualquer coisa. Ninguém abandona o hospital (como parece ter sido o caso) se não tiver razões muito fortes para isso. Se não se julgar a mais naquele local. Se não perceber respeito por parte dos profissionais que lá estão. Se não tiver a sensação de que está apenas a perder tempo.
Uma jovem mãe morreu em casa, sabendo-se que estava doente e após 5 idas ao hospital. É inegável que algo correu mal no “sistema”, mesmo que o “sistema” tenha sido abandonado por opção da doente. O “sistema” não foi capaz de proporcionar a esta pessoa o acolhimento que ela precisava. O “sistema” falhou, é um facto.
Comentando este assunto, o nosso simpático “médico explicador” MEMAI (que bons serviços tem prestado a esta comunidade virtual), desta vez está a ver mal o caso. O verdadeiro problema que se levanta escapou-lhe: a situação VISTA PELA DOENTE E FAMÍLIA. Não garanto que eles têm razão nem que houve negligência médica. Afirmo apenas que aquilo que eles SENTEM é certamente de "telenovela dramática", como a classifica MEMAI. O que impressiona e se torna especialmente triste é esse sentimento, esse desamparo que a sociedade não conseguiu resolver. Por comparação, é muito menos chocante (embora igualmente emocionante) este caso. Para Ivan Noble havia algo inevitável, era aceitar a vida e a morte como elas são, com todo o apoio que é humanamente possível dar. No caso português tratou-se de alguém entregue à sua sorte, na prática. É de telenovela mesmo!
Fala também MEMAI na “mão-de-obra barata”. É evidente que a experiência é importante em qualquer profissão. Mas é importante para evitar o ERRO, e não a NEGLIGÊNCIA. Isso não tem nada a ver com os 20 anos de prática. Um novato ou um sénior estão em exacta igualdade de circunstâncias nesse aspecto. O seu "cruzamento de notícias" é claramente tendencioso porque não tem quaisquer provas de que haja relação entre as duas. MEMAI está a recorrer às mesmas práticas que tantas vezes, e tão justamente, critica nos jornalistas.
Na resposta que me deu resolve falar em "cabala jornalística"(!) e não escreve do que devia escrever. Não sei se houve “negligência médica” no sentido estrito e formal do termo. Mas que se falhou, falhou.
2005/02/03
2005/02/01
A histeria das insinuações
Entrámos numa onda de protestos contra as insinuações e boatos de campanha política que me deixa perplexo e irritado.
Qual a melhor forma de propagar um boato e de dar visibilidade a uma insinuação?
É protestar veementemente contra quem os origina. É dizer que se bateu no fundo. É lamentar o baixo nível que se atingiu. É alimentar a curiosidade pacóvia.
É também fazer interpretações maliciosas de frases ambíguas. É mostrar que se “percebeu onde se queria chegar”. É denunciar a “intenção encoberta”. Um adepto das teorias da conspiração poderia até imaginar que os protestos contra as insinuações não tinham outro propósito senão ampliá-las, pois prejudicam simultaneamente o suposto autor e o suposto visado!...
Estou farto de ser “esclarecido”! Não suporto mais que me “demonstrem” que os políticos actuais têm má índole! Não gosto que me tratem como inconsciente nem como imbecil. E faz-me impressão que se parta do princípio que todo o país não vê o que é óbvio, pelo que é preciso “abrir os olhos ao povo”.
Se Portugal votar mal, paciência: terá o que merece. A solução não é queixarmo-nos dos políticos que temos, é fazermos surgir quem seja melhor que eles. O “povo” pode ser lento, mas não é burro de todo.
Qual a melhor forma de propagar um boato e de dar visibilidade a uma insinuação?
É protestar veementemente contra quem os origina. É dizer que se bateu no fundo. É lamentar o baixo nível que se atingiu. É alimentar a curiosidade pacóvia.
É também fazer interpretações maliciosas de frases ambíguas. É mostrar que se “percebeu onde se queria chegar”. É denunciar a “intenção encoberta”. Um adepto das teorias da conspiração poderia até imaginar que os protestos contra as insinuações não tinham outro propósito senão ampliá-las, pois prejudicam simultaneamente o suposto autor e o suposto visado!...
Estou farto de ser “esclarecido”! Não suporto mais que me “demonstrem” que os políticos actuais têm má índole! Não gosto que me tratem como inconsciente nem como imbecil. E faz-me impressão que se parta do princípio que todo o país não vê o que é óbvio, pelo que é preciso “abrir os olhos ao povo”.
Se Portugal votar mal, paciência: terá o que merece. A solução não é queixarmo-nos dos políticos que temos, é fazermos surgir quem seja melhor que eles. O “povo” pode ser lento, mas não é burro de todo.
2005/01/31
Os custos com pessoal...
... ou: por que é que fazemos mal as contas
Quando se recebe uma proposta de fornecimento de serviços é habitual fazer uma comparação entre o valor proposto e um hipotético salário de trabalho dependente que corresponderia ao mesmo tempo de serviço. Essa comparação é legítima e eu, pessoalmente, baseio-me nela para determinar os valores que eu próprio proponho.
Contudo, ao fazer esta comparação é necessário ter em conta um conjunto de factores que frequentemente são esquecidos mas que quem presta o serviço tem infelizmente que prever. Daí a diferença apenas aparentemente grande entre os valores do trabalho dependente e os da prestação de serviços.
Aqui ficam abaixo alguns exemplos de custos "escondidos" para entidades empregadoras e que têm o seu equivalente também nos fornecedores de serviços. Tendo estes aspectos em conta, é também possível chegar a conclusões sobre o que seria um valor "normal" para prestação de serviços.
Como por parte do cliente típico não há a percepção de todos estes factores, os valores que está disposto a pagar pelo serviço são em geral muito inferiores aos que seriam justos e que são correntes noutros países mais desenvolvidos (mesmo descontando as diferenças do custo de vida).
Quando se recebe uma proposta de fornecimento de serviços é habitual fazer uma comparação entre o valor proposto e um hipotético salário de trabalho dependente que corresponderia ao mesmo tempo de serviço. Essa comparação é legítima e eu, pessoalmente, baseio-me nela para determinar os valores que eu próprio proponho.
Contudo, ao fazer esta comparação é necessário ter em conta um conjunto de factores que frequentemente são esquecidos mas que quem presta o serviço tem infelizmente que prever. Daí a diferença apenas aparentemente grande entre os valores do trabalho dependente e os da prestação de serviços.
Aqui ficam abaixo alguns exemplos de custos "escondidos" para entidades empregadoras e que têm o seu equivalente também nos fornecedores de serviços. Tendo estes aspectos em conta, é também possível chegar a conclusões sobre o que seria um valor "normal" para prestação de serviços.
- Um trabalhador dependente tem 14 meses de salário por ano, o prestador de serviços cobra apenas 11 ou 12.
- A entidade empregadora desconta 23,75% do salário para a segurança social, o que não acontece quando adquire serviços, pois esse desconto é suportado pelo fornecedor.
- Um entidade empregadora deve obrigatoriamente ter um seguro de acidentes de trabalho para os seus trabalhadores. Os trabalhadores independentes têm também que o possuir e suportar portanto o respectivo custo. Em muitos casos é também necessário um seguro adicional de responsabilidade civil.
- Os custos de formação profissional (incluindo o tempo de "não-trabalho") podem ser significativos para uma entidade empregadora e também existem para profissionais liberais.
- A existência do posto de trabalho e das ferramentas a ele associadas pode atingir valores muito elevados para a entidade empregadora e também para trabalhadores independentes:
- amortização ou arrendamento das instalações e mobiliário
- computadores e licenças de software
- telefone, fax, electricidade, acesso à Internet, consumíveis...
- documentação técnica
- em alguns casos, viatura e telemóvel.
- O tempo de "conquista" do cliente não conta como "horas de trabalho a cobrar" pelo fornecedor de serviços mas é efectivamente gasto e portanto reflecte-se indirectamente.
- Há uma característica subjacente à actividade de prestação de serviços, que é o de nem sempre conseguir "vender" 100% do tempo disponível. Ao contrário, o funcionário de uma organização tem o seu salário garantido bem como hipóteses de progressão na carreira.
- Um trabalhador independente não tem uma "máquina administrativa" à qual pode recorrer tal como existe normalmente numa organização e que para ela é um custo de funcionamento: secretariado, contabilidade, apoio jurídico, etc.
- O risco acrescido de uma actividade independente só faz sentido se proporcionar receitas mais elevadas do que o trabalho por conta de outrem.
Como por parte do cliente típico não há a percepção de todos estes factores, os valores que está disposto a pagar pelo serviço são em geral muito inferiores aos que seriam justos e que são correntes noutros países mais desenvolvidos (mesmo descontando as diferenças do custo de vida).
2005/01/29
Santana vs Sócrates
Pelo andar da campanha, pelas propostas que (não) são apresentadas, pelas pessoas que se apresentam para um eventual Governo caso vençam as eleições, parece-me que se aplica aquilo que aqui escrevi relativamente a Bush vs Kerry.
Ou seja, talvez seja preferível Santana a Sócrates. O primeiro já pode corrigir os seus erros, o segundo ainda teria que os cometer. Nenhum deles me convenceu mas, mal por mal, antes Santana Lopes. Há a alternativa do voto em branco, que era o que mereciam. Mas infelizmente isso não resolve o problema do país e significa deixar para outros a decisão de quem nos vai governar. Os partidos valem muito mais do que aquilo que os seus líderes actuais representam.
Ou seja, talvez seja preferível Santana a Sócrates. O primeiro já pode corrigir os seus erros, o segundo ainda teria que os cometer. Nenhum deles me convenceu mas, mal por mal, antes Santana Lopes. Há a alternativa do voto em branco, que era o que mereciam. Mas infelizmente isso não resolve o problema do país e significa deixar para outros a decisão de quem nos vai governar. Os partidos valem muito mais do que aquilo que os seus líderes actuais representam.
2005/01/17
A Política "Open Source"
Defendo que se deve fomentar um estilo de Política de alguma forma análogo ao software “Open Source”. Da mesma forma que nesse software o código é tornado público para poder ser analisado, comentado, corrigido e melhorado, também na gestão dos dinheiros públicos se deveriam como regra geral seguir princípios equivalentes:
- dar a conhecer os objectivos
- tornar públicos os estudos
- recolher sugestões e comentários sobre os projectos
- avaliar e divulgar os resultados.
2005/01/04
Vida em sociedade
Ontem apareceu um texto no Causa Nossa sobre uma inacreditável limitação que um condomínio americano pretende impor: não poderão lá habitar crianças menores de 16 anos! Mais tarde defendeu-se no Blasfémias que essa pretensão é legítima... Tive que responder. Recolho aqui de forma mais organizada aquilo que escrevi no debate que houve nos comentários do Blasfémias.
Tomemos um exemplo didáctico igualmente caricatural:
"Não se aceitam pretos neste condomínio. Quem não gostar ou for preto pode ir morar para outro lado."
Find: "preto"
Replace with: "criança"
Qual é a diferença?
Find: "preto"
Replace with: "idoso"
Qual é a diferença?
Find: "preto"
Replace with: "muçulmano"
Qual é a diferença?
Find: "preto"
Replace with: "mulher"
Qual é a diferença?
Find: "preto"
Replace with: "deficiente"
Qual é a diferença?
Cada um pode fazer o que quiser NO SEU espaço privado pessoal, mas não pode ORGANIZAR-SE com outras pessoas para fazer distinções destas num conjunto de propriedades privadas para exclusão de uma classe particular de cidadãos na base da raça, credo, idade, etc. É uma limitação que qualquer sociedade minimamente civilizada deve impor aos cidadãos. Quem quer viver num espaço "limpo de indesejáveis" compra a sua própria moradia. Se estiver num condomínio, sujeita-se às regras gerais da vida em sociedade. Se não tem dinheiro para uma moradia autónoma, isolada, paciência. Não se pode ter tudo na vida. Lá vai ter que conviver com crianças, brancos, pretos, doentes, etc.
A diferença é entre "vida estritamente privada, individual" e "vida em sociedade". "Condomínio" é claramente "vida em sociedade".
Posto noutros termos: situações como esta aqui relatada, em caso de divergência insanável, legitimariam o uso da força bruta por parte de quem se sentir prejudicado, contra o Estado que sustentasse essas leis e contra esses privados.
Esta é uma questão de fundo que só se aprende e aceita ao longo da vida e do nosso aperfeiçoamento pessoal. São valores absolutos, se calhar até axiomáticos. Não compreender este problema da exclusão mesmo no domínio privado é não perceber os fundamentos de uma sociedade civilizada, da democracia. Com humildade e honestidade intelectual, mais tarde ou mais cedo isto percebe-se.
Há uma característica que as pessoas normalmente vão ganhando com a idade. É a capacidade de criar "alertas" eficazes que actuam quando inconscientemente o raciocínio nos leva a exageros insustentáveis, ou quando as acções divergem dos fins a que se destinavam. É isso que nos obriga a pensar de novo (muitas vezes recorrendo a cenários por redução ao absurdo), ou a comparar aquilo que fazemos com o "estado da arte" a que outros já chegaram. É este esforço de humildade e ponderação que posteriormente sustenta o nosso progresso. Chama-se a essa característica "maturidade".
PS: Ler também Vital Moreira.
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Tomemos um exemplo didáctico igualmente caricatural:
"Não se aceitam pretos neste condomínio. Quem não gostar ou for preto pode ir morar para outro lado."
Find: "preto"
Replace with: "criança"
Qual é a diferença?
Find: "preto"
Replace with: "idoso"
Qual é a diferença?
Find: "preto"
Replace with: "muçulmano"
Qual é a diferença?
Find: "preto"
Replace with: "mulher"
Qual é a diferença?
Find: "preto"
Replace with: "deficiente"
Qual é a diferença?
Cada um pode fazer o que quiser NO SEU espaço privado pessoal, mas não pode ORGANIZAR-SE com outras pessoas para fazer distinções destas num conjunto de propriedades privadas para exclusão de uma classe particular de cidadãos na base da raça, credo, idade, etc. É uma limitação que qualquer sociedade minimamente civilizada deve impor aos cidadãos. Quem quer viver num espaço "limpo de indesejáveis" compra a sua própria moradia. Se estiver num condomínio, sujeita-se às regras gerais da vida em sociedade. Se não tem dinheiro para uma moradia autónoma, isolada, paciência. Não se pode ter tudo na vida. Lá vai ter que conviver com crianças, brancos, pretos, doentes, etc.
A diferença é entre "vida estritamente privada, individual" e "vida em sociedade". "Condomínio" é claramente "vida em sociedade".
Posto noutros termos: situações como esta aqui relatada, em caso de divergência insanável, legitimariam o uso da força bruta por parte de quem se sentir prejudicado, contra o Estado que sustentasse essas leis e contra esses privados.
Esta é uma questão de fundo que só se aprende e aceita ao longo da vida e do nosso aperfeiçoamento pessoal. São valores absolutos, se calhar até axiomáticos. Não compreender este problema da exclusão mesmo no domínio privado é não perceber os fundamentos de uma sociedade civilizada, da democracia. Com humildade e honestidade intelectual, mais tarde ou mais cedo isto percebe-se.
Há uma característica que as pessoas normalmente vão ganhando com a idade. É a capacidade de criar "alertas" eficazes que actuam quando inconscientemente o raciocínio nos leva a exageros insustentáveis, ou quando as acções divergem dos fins a que se destinavam. É isso que nos obriga a pensar de novo (muitas vezes recorrendo a cenários por redução ao absurdo), ou a comparar aquilo que fazemos com o "estado da arte" a que outros já chegaram. É este esforço de humildade e ponderação que posteriormente sustenta o nosso progresso. Chama-se a essa característica "maturidade".
PS: Ler também Vital Moreira.
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2004/12/30
A imaturidade
Não deixam de me espantar os restos de adolescência que frequentemente se revelam em quem tem a seu cargo responsabilidades importantes no país.
Veja-se a farsa do défice público.
Há que separar dois casos bem diferentes.
Um é recorrer a receitas extraordinárias reais para manter a desgraça das contas num nível "aceitável". Pode não ser consensual mas é honestamente defensável. Trata-se de resolver pontualmente uma situação que importa corrigir nos anos seguintes. Mesmo que o negócio (venda de imóveis supérfluos do Estado, por exemplo) não seja tão bom quanto seria noutras circunstâncias, pelo menos parte das dívidas fica de facto liquidada e já não nos atormenta mais.
Outra opção totalmente distinta é contabilizar receitas fingidas porque ou não existem de todo, ou criam compromissos financeiros ainda piores para o futuro. Na realidade nem sequer são "fingidas" porque todos sabemos o que se passa! O Estado português sujeita-se apenas à penosa vergonha de um jogo contabilístico só explicável pela fraqueza de quem não quer enfrentar os problemas de frente e às claras. Não é pela Alemanha ou a França fazerem o mesmo que esta actuação fica "branqueada". A mentira nas contas públicas não é aceitável sob pretexto nenhum, em nenhum lado. A maturidade obrigar-nos-ia a manter os princípios mesmo quando estamos mal acompanhados.
Veja-se a farsa do défice público.
Há que separar dois casos bem diferentes.
Um é recorrer a receitas extraordinárias reais para manter a desgraça das contas num nível "aceitável". Pode não ser consensual mas é honestamente defensável. Trata-se de resolver pontualmente uma situação que importa corrigir nos anos seguintes. Mesmo que o negócio (venda de imóveis supérfluos do Estado, por exemplo) não seja tão bom quanto seria noutras circunstâncias, pelo menos parte das dívidas fica de facto liquidada e já não nos atormenta mais.
Outra opção totalmente distinta é contabilizar receitas fingidas porque ou não existem de todo, ou criam compromissos financeiros ainda piores para o futuro. Na realidade nem sequer são "fingidas" porque todos sabemos o que se passa! O Estado português sujeita-se apenas à penosa vergonha de um jogo contabilístico só explicável pela fraqueza de quem não quer enfrentar os problemas de frente e às claras. Não é pela Alemanha ou a França fazerem o mesmo que esta actuação fica "branqueada". A mentira nas contas públicas não é aceitável sob pretexto nenhum, em nenhum lado. A maturidade obrigar-nos-ia a manter os princípios mesmo quando estamos mal acompanhados.
2004/12/11
A "estratégia para a Região"
Muita gente defende a Regionalização com base em argumentos respeitáveis e motivações compreensíveis. No entanto, essa defesa parte de uma premissa a meu ver errada: a de que “a região precisa de uma estratégia”.
Não compreendo isto.
Das três uma:
O que o Estado deve fazer é criar/gerir/disponibilizar as infra-estruturas básicas: transportes, energia, água e saneamento, educação, saúde, etc., etc. Deve também garantir que as regras de convívio em sociedade são cumpridas a nível de urbanismo, segurança, participação cívica, funcionamento saudável da economia de mercado, ...
Deve actuar apenas onde a iniciativa privada não pode, não quer ou não sabe. E, em geral, apenas enquanto não pode, não quer ou não sabe.
Afinal seria uma estratégia definida por quem, dirigida a quem, implementada por quem?
Não precisamos por isso de “uma estratégia”. Precisamos apenas de um Estado que não complique desnecessariamente a vida a quem quer trabalhar e que deixe a “sociedade civil” evoluir por si própria.
Nada impede, apesar de tudo, que tentemos coordenar esforços. Sugerindo áreas de actuação. Criando produtos ou serviços complementares aos já existentes. Investigando em conjunto. Promovendo recursos comuns, sejam eles privados ou públicos. Tudo isto sem forçar consensos nem impor soluções.
Não precisamos portanto de regionalização. Basta-nos a administração local organizada em municípios com dimensão correspondente à dos aglomerados urbanos que na prática existem, apoiados numa malha de freguesias geridas por juntas com as competências adequadas. Ultrapassam-se deste modo as eternas rivalidades e invejas entre autarcas vizinhos num espaço que foi artificialmente dividido para efeitos administrativos. Não é mais ou menos assim que funcionam Londres, Paris ou Nova Iorque? Será o Grande Porto tão grande que não se possa organizar em concelhos maiores?
Não compreendo isto.
Das três uma:
- ou se aceita que o Estado (poder central ou poder local, tanto faz) passe a assumir uma posição dominante na economia (em sentido lato) da região para poder implantar essa “estratégia”;
- ou se considera viável alcançar um “amplo consenso social” de modo que a iniciativa privada actue maioritariamente em coordenação para atingir um “objectivo comum”;
- ou se considera que as hipóteses anteriores são inaceitáveis/irrealistas e portanto a existência de “uma estratégia” regional não é de todo possível.
O que o Estado deve fazer é criar/gerir/disponibilizar as infra-estruturas básicas: transportes, energia, água e saneamento, educação, saúde, etc., etc. Deve também garantir que as regras de convívio em sociedade são cumpridas a nível de urbanismo, segurança, participação cívica, funcionamento saudável da economia de mercado, ...
Deve actuar apenas onde a iniciativa privada não pode, não quer ou não sabe. E, em geral, apenas enquanto não pode, não quer ou não sabe.
Afinal seria uma estratégia definida por quem, dirigida a quem, implementada por quem?
Não precisamos por isso de “uma estratégia”. Precisamos apenas de um Estado que não complique desnecessariamente a vida a quem quer trabalhar e que deixe a “sociedade civil” evoluir por si própria.
Nada impede, apesar de tudo, que tentemos coordenar esforços. Sugerindo áreas de actuação. Criando produtos ou serviços complementares aos já existentes. Investigando em conjunto. Promovendo recursos comuns, sejam eles privados ou públicos. Tudo isto sem forçar consensos nem impor soluções.
Não precisamos portanto de regionalização. Basta-nos a administração local organizada em municípios com dimensão correspondente à dos aglomerados urbanos que na prática existem, apoiados numa malha de freguesias geridas por juntas com as competências adequadas. Ultrapassam-se deste modo as eternas rivalidades e invejas entre autarcas vizinhos num espaço que foi artificialmente dividido para efeitos administrativos. Não é mais ou menos assim que funcionam Londres, Paris ou Nova Iorque? Será o Grande Porto tão grande que não se possa organizar em concelhos maiores?
2004/12/05
A Regionalização e a Descentralização
Actualmente o modelo de administração do país baseia-se em três níveis: governo central, municípios, juntas de freguesia.
Quer os defensores da "regionalização" quer os da "descentralização" defendem a criação de um nível intermédio entre o governo central e os municípios. Não os percebo.
Seria mais simples e eficaz manter apenas três níveis em vez de quatro, da seguinte forma:
- governo central
- municípios maiores que os actuais (por exemplo Porto+Gaia+Matosinhos)
- juntas de freguesia com poderes reforçados.
Para quê um quarto nível com tudo o que isso implica em termos de desperdícios e burocracia adicionais?
Quer os defensores da "regionalização" quer os da "descentralização" defendem a criação de um nível intermédio entre o governo central e os municípios. Não os percebo.
Seria mais simples e eficaz manter apenas três níveis em vez de quatro, da seguinte forma:
- governo central
- municípios maiores que os actuais (por exemplo Porto+Gaia+Matosinhos)
- juntas de freguesia com poderes reforçados.
Para quê um quarto nível com tudo o que isso implica em termos de desperdícios e burocracia adicionais?
2004/12/01
Cavaco Silva
Cavaco Silva novamente como primeiro-ministro é uma péssima ideia. É evidente que faria bom trabalho, mas nenhum país se deve deixar tanto na dependência das qualidades pessoais de um homem.
É preciso que Portugal, como um todo, aprenda com os seus erros. Recorrer a Cavaco Silva seria desistir de aprender, seria resignarmo-nos a uma futura desgraça de incompetência/inconsciência ainda mais generalizada.
É preciso que Portugal, como um todo, aprenda com os seus erros. Recorrer a Cavaco Silva seria desistir de aprender, seria resignarmo-nos a uma futura desgraça de incompetência/inconsciência ainda mais generalizada.
2004/11/18
O tabaco nos restaurantes
Na sequência de uma discussão nos comentários de um post no Blasfémias, eu resumiria a minha opinião deste modo:
1) fumar não é um acto pessoal, no sentido em que afecta outros (ao contrário de comer gorduras excessivas, por exemplo);
2) é uma questão de salubridade como qualquer outra num local cuja função principal é dar de comer (por isso é que existem licenças de funcionamento);
3) também é um local de trabalho para os seus empregados, que não devem ser obrigados a suportar o fumo dos clientes.
1) fumar não é um acto pessoal, no sentido em que afecta outros (ao contrário de comer gorduras excessivas, por exemplo);
2) é uma questão de salubridade como qualquer outra num local cuja função principal é dar de comer (por isso é que existem licenças de funcionamento);
3) também é um local de trabalho para os seus empregados, que não devem ser obrigados a suportar o fumo dos clientes.
2004/11/04
Mal por mal...
Entre um indeciso que ainda ia ter que experimentar governar os Estados Unidos, e alguém mais determinado que já sabe que fez asneiras... Talvez seja preferível Bush a Kerry. O primeiro já pode corrigir os seus erros, o segundo ainda teria que os cometer.
Nenhum deles me convenceu. Mas tenhamos alguma esperança: se Bush fosse tão idiota como por vezes o pintam nunca teria sido reeleito.
Nenhum deles me convenceu. Mas tenhamos alguma esperança: se Bush fosse tão idiota como por vezes o pintam nunca teria sido reeleito.
2004/10/19
As próximas eleições autárquicas no Porto
Levantou-se n’A Baixa do Porto o tema das próximas eleições autárquicas e lá se constata que já nada há a esperar dos actuais protagonistas da política portuense. O triste espectáculo do debate sobre a Sociedade de Reabilitação Urbana foi o motivo mais recente.
Adopte-se então uma atitude positiva e pense-se mais longe: como mudar esta suposta "elite dirigente" quando formos novamente a votos.
Estou convencido de que a solução passará sempre pelos partidos políticos. No sistema actual é principalmente aos partidos que cabe a responsabilidade de apresentar propostas e candidatos, de estudar políticas, de apontar caminhos para a gestão autárquica. A intervenção da sociedade civil pode fazer-se também pela participação na vida interna dos partidos, obrigando-os a agirem de acordo com os interesses da população e não em função das guerrilhas mais mesquinhas que agora todos observamos com indignação. Os partidos e os seus dirigentes são o que são porque nós deixámos! Por termos outros interesses perfeitamente legítimos, por faltar paciência, seja lá pelo que for, a política ficou entregue a quem não está à altura das responsabilidades que lhe foram atribuídas.
A situação do Porto é muito grave. Tão grave que não é difícil, estando de boa fé, encontrar plataformas de consenso entre todos os partidos. A "sociedade civil" não pode estar contra os partidos, nem estes podem continuar afastados dos interesses da população. O que proponho é que comecemos desde já a actuar no interior de cada partido (nós, os "outsiders") identificando prioridades para a cidade e suscitando o aparecimento de programas eleitorais que possam ser objecto de acordo alargado a todas as principais forças políticas.
O Porto chegou a tal ponto de degradação que, após encontrado um consenso mínimo sobre as principais acções a executar no próximo mandato, se justificava uma candidatura independente apoiada pelos principais partidos. Trata-se de um "estado de emergência", que exige medidas radicais e excepcionais como esta.
Adopte-se então uma atitude positiva e pense-se mais longe: como mudar esta suposta "elite dirigente" quando formos novamente a votos.
Estou convencido de que a solução passará sempre pelos partidos políticos. No sistema actual é principalmente aos partidos que cabe a responsabilidade de apresentar propostas e candidatos, de estudar políticas, de apontar caminhos para a gestão autárquica. A intervenção da sociedade civil pode fazer-se também pela participação na vida interna dos partidos, obrigando-os a agirem de acordo com os interesses da população e não em função das guerrilhas mais mesquinhas que agora todos observamos com indignação. Os partidos e os seus dirigentes são o que são porque nós deixámos! Por termos outros interesses perfeitamente legítimos, por faltar paciência, seja lá pelo que for, a política ficou entregue a quem não está à altura das responsabilidades que lhe foram atribuídas.
A situação do Porto é muito grave. Tão grave que não é difícil, estando de boa fé, encontrar plataformas de consenso entre todos os partidos. A "sociedade civil" não pode estar contra os partidos, nem estes podem continuar afastados dos interesses da população. O que proponho é que comecemos desde já a actuar no interior de cada partido (nós, os "outsiders") identificando prioridades para a cidade e suscitando o aparecimento de programas eleitorais que possam ser objecto de acordo alargado a todas as principais forças políticas.
O Porto chegou a tal ponto de degradação que, após encontrado um consenso mínimo sobre as principais acções a executar no próximo mandato, se justificava uma candidatura independente apoiada pelos principais partidos. Trata-se de um "estado de emergência", que exige medidas radicais e excepcionais como esta.
O circo na cidade
Tenho seguido a verdadeira palhaçada que está a ocorrer no Porto a propósito da Sociedade de Reabilitação Urbana. N'A Baixa do Porto vai-se relatando o debatendo este assunto.
A situação é verdadeiramente "democrática": todos se portam igualmente mal, independentemente das filiações partidárias. Bonito exemplo.
Não é só a política nacional que vai mal, a portuense também está ao nível do submundo do futebol. Mas aqui o ritmo tem sido diário, e não semanal.
A situação é verdadeiramente "democrática": todos se portam igualmente mal, independentemente das filiações partidárias. Bonito exemplo.
Não é só a política nacional que vai mal, a portuense também está ao nível do submundo do futebol. Mas aqui o ritmo tem sido diário, e não semanal.
2004/09/29
A Excelência
Parece que as listas de colocações de professores finalmente apareceram!
Algumas conclusões desde já se podem retirar.
1) O processo não foi de facto manual, nem nunca poderia ter sido para que a lei fosse integralmente respeitada. A tarefa era demasiado pesada para dispensar computadores. O Ministério afirmou mesmo que "à mão" terá sido uma força de expressão, em qualquer caso.
2) Tanto quanto percebi, a solução terá sido obtida por via informática por uma equipa contratada recentemente, em colaboração com pessoas do Ministério junto de quem validaram o algoritmo e os resultados.
3) Se o processo foi agora concluído tão rapidamente, provou-se que a Compta foi incompetente, mesmo que eventualmente o Ministério tenha partilhado responsabilidades.
4) Se a lei foi de facto integralmente respeitada e dado o curto prazo decorrido, provavelmente o problema da colocação de professores não tem intrinsecamente uma complexidade muito elevada. Talvez o (mau) algoritmo que estava a ser usado para o resolver possuísse, esse sim, "complexidade exponencial". Este é contudo um aspecto que merece análise mais cuidada e, principalmente, científica. Como já foi sugerido por outros, é uma óptima ocasião de "abrir o problema à sociedade" suscitando o aparecimento de propostas de solução e demonstrando como a Ciência é útil na vida de todos os dias.
Já observei um dos habituais "tiros ao lado" que aparecem na sequência das crises nacionais: que isto provaria a necessidade de promover a Excelência, pois bastou um "salvador" para resolver as dificuldades. Discordo completamente: o que isto prova é a absoluta urgência de promover a "normal" competência do comum dos mortais.
A "Excelência" em si não precisa de ser promovida. O que importa é criar um ambiente generalizado de alto nível técnico, cultural, científico (e ético!) para que a Excelência possa ter condições de se desenvolver. Promover a Excelência sem este substrato é fomentar o "desenrascanso", é esquecer que o mundo é feito principalmente por "pessoas normais" medianamente competentes. Os "excelentes" são excelentes motores, são excelentes referências, são excelentes mais-valias. Quando aparecem, devem ser excelentemente aproveitados para que haja um salto qualitativo superior ao que seria normal. Mas não há Excelência que resista muito tempo num mar de incompetentes.
PS: Duas notas mais.
1) Além de informáticos incompetentes, também continuamos a ter maus jornalistas. Ao falarem de colocações duvidosas misturam eventuais erros de programação com atestados fraudulentos, com erros de introdução de dados e com frustações de não se ter sido colocado. Como se fosse tudo a mesma coisa... E em conferência de imprensa não perguntam sequer (ou pelo menos não mostram na versão editada da reportagem) se se conhece com segurança a origem dessas eventuais falhas de colocação.
2) Pelas declarações da Ministra e da empresa ATX Software, palpita-me que o trabalho foi desenvolvido gratuitamente... É certo que o prestígio conseguido pela empresa valeu bem o esforço mas, a confirmar-se a minha impressão, mais uma vez os portugueses mostram um dos seus defeitos: mesmo que seja um preço justo, tentam tudo para evitar pagar seja o que for.
Algumas conclusões desde já se podem retirar.
1) O processo não foi de facto manual, nem nunca poderia ter sido para que a lei fosse integralmente respeitada. A tarefa era demasiado pesada para dispensar computadores. O Ministério afirmou mesmo que "à mão" terá sido uma força de expressão, em qualquer caso.
2) Tanto quanto percebi, a solução terá sido obtida por via informática por uma equipa contratada recentemente, em colaboração com pessoas do Ministério junto de quem validaram o algoritmo e os resultados.
3) Se o processo foi agora concluído tão rapidamente, provou-se que a Compta foi incompetente, mesmo que eventualmente o Ministério tenha partilhado responsabilidades.
4) Se a lei foi de facto integralmente respeitada e dado o curto prazo decorrido, provavelmente o problema da colocação de professores não tem intrinsecamente uma complexidade muito elevada. Talvez o (mau) algoritmo que estava a ser usado para o resolver possuísse, esse sim, "complexidade exponencial". Este é contudo um aspecto que merece análise mais cuidada e, principalmente, científica. Como já foi sugerido por outros, é uma óptima ocasião de "abrir o problema à sociedade" suscitando o aparecimento de propostas de solução e demonstrando como a Ciência é útil na vida de todos os dias.
Já observei um dos habituais "tiros ao lado" que aparecem na sequência das crises nacionais: que isto provaria a necessidade de promover a Excelência, pois bastou um "salvador" para resolver as dificuldades. Discordo completamente: o que isto prova é a absoluta urgência de promover a "normal" competência do comum dos mortais.
A "Excelência" em si não precisa de ser promovida. O que importa é criar um ambiente generalizado de alto nível técnico, cultural, científico (e ético!) para que a Excelência possa ter condições de se desenvolver. Promover a Excelência sem este substrato é fomentar o "desenrascanso", é esquecer que o mundo é feito principalmente por "pessoas normais" medianamente competentes. Os "excelentes" são excelentes motores, são excelentes referências, são excelentes mais-valias. Quando aparecem, devem ser excelentemente aproveitados para que haja um salto qualitativo superior ao que seria normal. Mas não há Excelência que resista muito tempo num mar de incompetentes.
PS: Duas notas mais.
1) Além de informáticos incompetentes, também continuamos a ter maus jornalistas. Ao falarem de colocações duvidosas misturam eventuais erros de programação com atestados fraudulentos, com erros de introdução de dados e com frustações de não se ter sido colocado. Como se fosse tudo a mesma coisa... E em conferência de imprensa não perguntam sequer (ou pelo menos não mostram na versão editada da reportagem) se se conhece com segurança a origem dessas eventuais falhas de colocação.
2) Pelas declarações da Ministra e da empresa ATX Software, palpita-me que o trabalho foi desenvolvido gratuitamente... É certo que o prestígio conseguido pela empresa valeu bem o esforço mas, a confirmar-se a minha impressão, mais uma vez os portugueses mostram um dos seus defeitos: mesmo que seja um preço justo, tentam tudo para evitar pagar seja o que for.
2004/09/23
A Justiça
Uma das belezas do mundo é que tudo tem um lado bom.
O lamentável exemplo da colocação de professores, sendo muito grave, tem contudo um enorme valor como demonstração do que está mal e de como falta competência na gestão técnica de assuntos que não deveriam justificar nenhuma dificuldade especial.
De entre os muitos factos que agora se tornaram absolutamente indesmentíveis, destaco os seguintes.
1) O sistema de gestão das vagas de professores no Ministério da Educação é patético (e isto não tem nada a ver com Informática).
2) Não tem sido dada responsabilidade de gestão técnica a quem tem perfil adequado para isso.
3) As muitas iniciativas de difusão das Tecnologias de Informação promovidas pelo Governo deveriam ter tido segunda prioridade por comparação com a revisão completa dos sistemas informáticos estatais que é suposto ajudarem o país a funcionar.
4) Os procedimentos normais de controlo e auditoria ao trabalho que é feito (seja por funcionários públicos ou por entidades externas) não são aplicados pelo Estado.
5) Se o sistema de Justiça estivesse a funcionar saudavelmente, seria viável recorrer a ele para corrigir "à força" em tempo útil muita coisa errada. Já aqui o tinha escrito, nesta ocasião.
Não partilho da opinião de que tudo são "máfias" e má vontade. Há também disso, mas mais graves são os problemas de incompetência de Gestão e de falta de maturidade de pessoas a quem têm sido atribuídas responsabilidades de chefia. (Uma delas chegou ao topo da hierarquia, não nos esqueçamos!) É altura de as substituir em larga escala. É altura de tornar a Justiça a prioridade das prioridades. Fomos todos nós que permitimos que a situação chegasse onde chegou, cabe-nos a nós todos corrigir os erros.
O lamentável exemplo da colocação de professores, sendo muito grave, tem contudo um enorme valor como demonstração do que está mal e de como falta competência na gestão técnica de assuntos que não deveriam justificar nenhuma dificuldade especial.
De entre os muitos factos que agora se tornaram absolutamente indesmentíveis, destaco os seguintes.
1) O sistema de gestão das vagas de professores no Ministério da Educação é patético (e isto não tem nada a ver com Informática).
2) Não tem sido dada responsabilidade de gestão técnica a quem tem perfil adequado para isso.
3) As muitas iniciativas de difusão das Tecnologias de Informação promovidas pelo Governo deveriam ter tido segunda prioridade por comparação com a revisão completa dos sistemas informáticos estatais que é suposto ajudarem o país a funcionar.
4) Os procedimentos normais de controlo e auditoria ao trabalho que é feito (seja por funcionários públicos ou por entidades externas) não são aplicados pelo Estado.
5) Se o sistema de Justiça estivesse a funcionar saudavelmente, seria viável recorrer a ele para corrigir "à força" em tempo útil muita coisa errada. Já aqui o tinha escrito, nesta ocasião.
Não partilho da opinião de que tudo são "máfias" e má vontade. Há também disso, mas mais graves são os problemas de incompetência de Gestão e de falta de maturidade de pessoas a quem têm sido atribuídas responsabilidades de chefia. (Uma delas chegou ao topo da hierarquia, não nos esqueçamos!) É altura de as substituir em larga escala. É altura de tornar a Justiça a prioridade das prioridades. Fomos todos nós que permitimos que a situação chegasse onde chegou, cabe-nos a nós todos corrigir os erros.
2004/09/21
O concurso perdido
Sejamos realistas: este concurso de professores está perdido. Independentemente de saber de quem é a responsabilidade, o facto é que o actual sistema informático de colocações não tem cura. Provavelmente foi mal especificado, quase seguramente foi mal programado. Faltou uma gestão técnica adequada, que já teria dado o "doente" como morto há muito tempo. Bastaria ter ouvido a Ministra contar os "detalhes sórdidos" ontem no "Prós e Contras" para enterrar de vez o cadáver.
Não se confundam as questões: há uma política e há outra estritamente técnica. Sobre esta última, diga-se que nenhuma dificuldade específica justificaria este triste espectáculo. Uma equipa competente é capaz de resolver o problema com poucos recursos e em pouco tempo. O resto é apenas inépcia e incapacidade de a reconhecer.
Aceitemos o facto de que não vai haver listas.
O que fazer?
Talvez tratar o assunto escola a escola:
1) manter as colocações que já tiverem sido feitas este ano;
2) nas vagas ainda em aberto tentar manter as colocações do ano passado se esses professores ainda estiverem "livres";
3) "tapar os restantes buracos" com micro-concursos locais.
Mas sobre isto não me atrevo a ter uma posição, está longe de ser a minha área.
----
PS - Se o processamento vai ser feito "à mão" para 50.000 professores, então verifica-se uma de três situações:
a) qualquer programador competente consegue em um ou dois dias fazer um programa que execute automaticamente aquilo que agora vai ser feito manualmente ou
b) esse processamento manual implica "interpretações" caso a caso de uma lei que estará eventualmente mal feita (e que portanto não permitirá extrair um conjunto inequívoco de regras de colocação susceptível de ser traduzido fielmente em software) ou
c) as regras a utilizar serão uma "versão simplificada" das que estão previstas na lei, que portanto não seria integralmente cumprida.
É _muito_ importante perceber o que se passa, afinal.
Não se confundam as questões: há uma política e há outra estritamente técnica. Sobre esta última, diga-se que nenhuma dificuldade específica justificaria este triste espectáculo. Uma equipa competente é capaz de resolver o problema com poucos recursos e em pouco tempo. O resto é apenas inépcia e incapacidade de a reconhecer.
Aceitemos o facto de que não vai haver listas.
O que fazer?
Talvez tratar o assunto escola a escola:
1) manter as colocações que já tiverem sido feitas este ano;
2) nas vagas ainda em aberto tentar manter as colocações do ano passado se esses professores ainda estiverem "livres";
3) "tapar os restantes buracos" com micro-concursos locais.
Mas sobre isto não me atrevo a ter uma posição, está longe de ser a minha área.
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PS - Se o processamento vai ser feito "à mão" para 50.000 professores, então verifica-se uma de três situações:
a) qualquer programador competente consegue em um ou dois dias fazer um programa que execute automaticamente aquilo que agora vai ser feito manualmente ou
b) esse processamento manual implica "interpretações" caso a caso de uma lei que estará eventualmente mal feita (e que portanto não permitirá extrair um conjunto inequívoco de regras de colocação susceptível de ser traduzido fielmente em software) ou
c) as regras a utilizar serão uma "versão simplificada" das que estão previstas na lei, que portanto não seria integralmente cumprida.
É _muito_ importante perceber o que se passa, afinal.
2004/09/18
O que eu sei do Ministério da Educação
A incompetência na utilização de recursos informáticos no Ministério da Educação está longe de ser novidade. Em 1998 consegui acesso aos ficheiros dos resultados das colocações de professores com umas horas de antecedência em relação à divulgação oficial, pois estavam disponíveis online no servidor do Ministério num endereço não divulgado mas desprotegido.
Com a ajuda de colaboradores meus, tratei essa informação e coloquei-a online numa máquina alojada no Departamento de Informática da Universidade Católica no Porto, que eu dirigia na altura. Esse trabalho foi todo desenvolvido em 4 ou 5 horas. O computador era um vulgar PC de secretária, se não me engano com um processador Pentium II, 64 ou 128 MBytes de RAM, a correr Linux e Apache sem nenhuma configuração especial. A ligação à Internet era feita através do acesso do pólo da Foz da Universidade, nessa altura numa linha de 64kbit/s (como comparação, as ligações ADSL actuais são tipicamente de 512 Kbit/s!). As páginas foram feitas em HTML básico, sem imagens para ser leve, e possuíam uma ferramenta da pesquisa muito simples e bem melhor do que a do Ministério.
Este serviço teve enorme divulgação pública (via Internet, rádio, contactos pessoais, etc.) e milhares de acessos de repente, no dia "oficial". Nunca teve problemas de indisponibilidade e foi por lá que uma parte significativa dos professores soube da colocação, enquanto o servidor do Ministério estava em baixo. Durante o primeiro dia teve uma média de 2000 acessos por hora, tendo aguentado um pico de utilização muito mais elevado. Chegaram a telefonar-me pessoas do próprio Ministério da Educação a pedir-me para as informar de alguns resultados!
Propus ao Ministério que a minha empresa passasse a assegurar o serviço. Não houve interesse. No ano seguinte (1999) os problemas no servidor do Ministério repetiram-se e eu voltei a disponibilizar os resultados no meu. Em 2000 voltou a haver problemas no Ministério e eu, nessa altura, resolvi já não fazer nada apesar de ter os dados comigo. Desisti. A paciência tem limites.
Existe na "máquina do tempo da Internet" uma cópia em arquivo da versão de 1999 do meu servidor.
Provou-se assim que o problema com o servidor oficial não era falta de recursos técnicos: a máquina do Ministério era seguramente melhor do que a minha, a ligação à Internet tinha mais capacidade. A dificuldade do Ministério foi apenas a incompetência, irresponsabilidade e má vontade dos seus serviços. Apesar de conhecerem perfeitamente o serviço que estava a ser prestado, nunca me perguntaram qual a solução técnica que tinha adoptado, nunca aceitaram a minha proposta de ajuda.
Este problema da divulgação dos resultados é completamente diferente daquele que agora se verificou, que diz respeito ao processamento da colocação dos professores, mas mostra bem como (não) funcionava o Ministério da Educação. Podia dar mais exemplos que conheço bem.
Apresento abaixo apontadores para os faxes que enviei em 1998 e a única resposta do Ministério da Educação. Quem assina a resposta? – Joana Orvalho.
O anúncio do servidor em 1998
A minha proposta
A resposta do Ministério:
A minha insistência
PS: O Comércio do Porto fez referência a este assunto e o Correio da Manhã também.
Com a ajuda de colaboradores meus, tratei essa informação e coloquei-a online numa máquina alojada no Departamento de Informática da Universidade Católica no Porto, que eu dirigia na altura. Esse trabalho foi todo desenvolvido em 4 ou 5 horas. O computador era um vulgar PC de secretária, se não me engano com um processador Pentium II, 64 ou 128 MBytes de RAM, a correr Linux e Apache sem nenhuma configuração especial. A ligação à Internet era feita através do acesso do pólo da Foz da Universidade, nessa altura numa linha de 64kbit/s (como comparação, as ligações ADSL actuais são tipicamente de 512 Kbit/s!). As páginas foram feitas em HTML básico, sem imagens para ser leve, e possuíam uma ferramenta da pesquisa muito simples e bem melhor do que a do Ministério.
Este serviço teve enorme divulgação pública (via Internet, rádio, contactos pessoais, etc.) e milhares de acessos de repente, no dia "oficial". Nunca teve problemas de indisponibilidade e foi por lá que uma parte significativa dos professores soube da colocação, enquanto o servidor do Ministério estava em baixo. Durante o primeiro dia teve uma média de 2000 acessos por hora, tendo aguentado um pico de utilização muito mais elevado. Chegaram a telefonar-me pessoas do próprio Ministério da Educação a pedir-me para as informar de alguns resultados!
Propus ao Ministério que a minha empresa passasse a assegurar o serviço. Não houve interesse. No ano seguinte (1999) os problemas no servidor do Ministério repetiram-se e eu voltei a disponibilizar os resultados no meu. Em 2000 voltou a haver problemas no Ministério e eu, nessa altura, resolvi já não fazer nada apesar de ter os dados comigo. Desisti. A paciência tem limites.
Existe na "máquina do tempo da Internet" uma cópia em arquivo da versão de 1999 do meu servidor.
Provou-se assim que o problema com o servidor oficial não era falta de recursos técnicos: a máquina do Ministério era seguramente melhor do que a minha, a ligação à Internet tinha mais capacidade. A dificuldade do Ministério foi apenas a incompetência, irresponsabilidade e má vontade dos seus serviços. Apesar de conhecerem perfeitamente o serviço que estava a ser prestado, nunca me perguntaram qual a solução técnica que tinha adoptado, nunca aceitaram a minha proposta de ajuda.
Este problema da divulgação dos resultados é completamente diferente daquele que agora se verificou, que diz respeito ao processamento da colocação dos professores, mas mostra bem como (não) funcionava o Ministério da Educação. Podia dar mais exemplos que conheço bem.
Apresento abaixo apontadores para os faxes que enviei em 1998 e a única resposta do Ministério da Educação. Quem assina a resposta? – Joana Orvalho.
O anúncio do servidor em 1998
A minha proposta
A resposta do Ministério:
A minha insistência
PS: O Comércio do Porto fez referência a este assunto e o Correio da Manhã também.
2004/09/12
Tourada
Só esta faltava, o Abrupto a promover a tourada...
Este assunto, tendo uma gravidade evidentemente diferente, constitui um exemplo semelhante ao do Aborto de como as várias partes usam argumentos errados e sem lógica para defender posições por vezes correctas.
A tourada tem dois problemas.
O primeiro é ser um espectáculo bárbaro e deseducativo, mesmo que possua igualmente aspectos que consideraria “belos” não fosse o touro um ser vivo que sofre como nós. Será aceitável que se maltrate um animal para gáudio dos humanos? Acho inqualificáveis alguns argumentos que por vezes ouço, como o de que “é um combate justo”, etc., como se o touro tivesse escolhido de livre vontade entrar em duelo com o homem...
O segundo é saber se matar o touro na arena deve ser permitido ou não. Quanto a isso, o critério deve ser a minimização do sofrimento do touro. Acho preferível que ele seja abatido o mais rapidamente possível (o que seria ainda na arena), em vez de ficar em agonia até mais tarde, fora da vista do público. A luta contra os touros de morte parece-me assim completamente contraproducente pois, existindo a tourada, não beneficia os animais. Depois do público ter assistido a uma tortura lenta e cruel, a morte do touro é também um alívio misericordioso para quem assistiu a tal espectáculo.
O que está fundamentalmente errado é a tourada ser legal. Nenhuma tradição, nenhum “valor cultural”, nenhum interesse económico justifica este triste espectáculo. Como explicar a uma criança que se justifica infligir este sofrimento a um animal em nome do “domínio, da arte, da graça e do ritmo”? Tendo ela a percepção de que os humanos são tão parecidos (sem ironia) com os “bichos”, como lhe explicar: “podemos fazer isto aos bichos mas temos que tratar bem as pessoas”?
Este assunto, tendo uma gravidade evidentemente diferente, constitui um exemplo semelhante ao do Aborto de como as várias partes usam argumentos errados e sem lógica para defender posições por vezes correctas.
A tourada tem dois problemas.
O primeiro é ser um espectáculo bárbaro e deseducativo, mesmo que possua igualmente aspectos que consideraria “belos” não fosse o touro um ser vivo que sofre como nós. Será aceitável que se maltrate um animal para gáudio dos humanos? Acho inqualificáveis alguns argumentos que por vezes ouço, como o de que “é um combate justo”, etc., como se o touro tivesse escolhido de livre vontade entrar em duelo com o homem...
O segundo é saber se matar o touro na arena deve ser permitido ou não. Quanto a isso, o critério deve ser a minimização do sofrimento do touro. Acho preferível que ele seja abatido o mais rapidamente possível (o que seria ainda na arena), em vez de ficar em agonia até mais tarde, fora da vista do público. A luta contra os touros de morte parece-me assim completamente contraproducente pois, existindo a tourada, não beneficia os animais. Depois do público ter assistido a uma tortura lenta e cruel, a morte do touro é também um alívio misericordioso para quem assistiu a tal espectáculo.
O que está fundamentalmente errado é a tourada ser legal. Nenhuma tradição, nenhum “valor cultural”, nenhum interesse económico justifica este triste espectáculo. Como explicar a uma criança que se justifica infligir este sofrimento a um animal em nome do “domínio, da arte, da graça e do ritmo”? Tendo ela a percepção de que os humanos são tão parecidos (sem ironia) com os “bichos”, como lhe explicar: “podemos fazer isto aos bichos mas temos que tratar bem as pessoas”?
2004/09/09
Perguntas esquecidas
O tema do Aborto continua a provocar o aparecimento de comentários e opiniões sem qualquer suporte lógico ou racional.
No caso do referendo de 1998 podia-se considerar que existiam dois lados em oposição porque havia uma pergunta concreta a exigir uma resposta de SIM ou NÃO. Contudo, neste momento é totalmente inadequado dividir os cidadãos entre os defensores do SIM e os do NÃO. Existem inúmeros "lados", todos com posições e justificações diferentes. A bipolarização que surgiu demonstra ignorância, falta de rigor, deficiente capacidade de análise.
Há uma pergunta que se impõe mas que raramente é feita e muito menos respondida. Quase todos os "lados" defendem, em abstracto, que as mulheres que abortam "não devem ir para a prisão", independentemente de o aborto ser considerado ou não um crime. Mas: e quanto ao prazo, isso não será relevante para uma decisão quanto à penalização a aplicar?
Pergunta-se a quem defende a descriminalização até às 12 semanas (porque é supostamente "criminoso" prender uma mulher por esse motivo): e se uma mulher em boa situação económica e familiar abortar aos 7 meses, por exemplo, já deve ser presa? A resposta é quase sempre o silêncio. Julgo que há duas razões para isso. A primeira é o incómodo de confessar que se defende a prisão para alguns casos de irresponsabilidade mais grave. A segunda é que por vezes se apoia, sem o assumir, a total liberalização do Aborto independentemente do prazo, até ao nascimento.
A minha opinião já aqui foi explicada de forma clara: qualquer caso não autorizado por lei deve ser levado a tribunal. Se geralmente a prisão é desadequada, excepcionalmente poderá ser justificada. Havendo pais capazes de maltratar os filhos das formas mais inacreditáveis, por que fenómeno estatístico é que no caso do aborto não haveria também algumas situações que merecessem penas duras?
Outro aspecto esquecido é a penalização dos outros intervenientes que não a mulher. As clínicas que praticam abortos clandestinos não o fazem certamente por altruísmo. É um negócio sórdido. Não merecem prisão os seus responsáveis?
No caso do referendo de 1998 podia-se considerar que existiam dois lados em oposição porque havia uma pergunta concreta a exigir uma resposta de SIM ou NÃO. Contudo, neste momento é totalmente inadequado dividir os cidadãos entre os defensores do SIM e os do NÃO. Existem inúmeros "lados", todos com posições e justificações diferentes. A bipolarização que surgiu demonstra ignorância, falta de rigor, deficiente capacidade de análise.
Há uma pergunta que se impõe mas que raramente é feita e muito menos respondida. Quase todos os "lados" defendem, em abstracto, que as mulheres que abortam "não devem ir para a prisão", independentemente de o aborto ser considerado ou não um crime. Mas: e quanto ao prazo, isso não será relevante para uma decisão quanto à penalização a aplicar?
Pergunta-se a quem defende a descriminalização até às 12 semanas (porque é supostamente "criminoso" prender uma mulher por esse motivo): e se uma mulher em boa situação económica e familiar abortar aos 7 meses, por exemplo, já deve ser presa? A resposta é quase sempre o silêncio. Julgo que há duas razões para isso. A primeira é o incómodo de confessar que se defende a prisão para alguns casos de irresponsabilidade mais grave. A segunda é que por vezes se apoia, sem o assumir, a total liberalização do Aborto independentemente do prazo, até ao nascimento.
A minha opinião já aqui foi explicada de forma clara: qualquer caso não autorizado por lei deve ser levado a tribunal. Se geralmente a prisão é desadequada, excepcionalmente poderá ser justificada. Havendo pais capazes de maltratar os filhos das formas mais inacreditáveis, por que fenómeno estatístico é que no caso do aborto não haveria também algumas situações que merecessem penas duras?
Outro aspecto esquecido é a penalização dos outros intervenientes que não a mulher. As clínicas que praticam abortos clandestinos não o fazem certamente por altruísmo. É um negócio sórdido. Não merecem prisão os seus responsáveis?
2004/08/26
O Aborto, versão 2004
(Actualizado em 2004/08/27)
Tenho participado em alguns debates online, especialmente um no Barnabé. Aqui ficam os argumentos principais que tenho usado. As convicções religiosas não são relevantes para esta discussão e devem ser mantidas fora.
1) O aborto não pode ser considerado um problema da consciência individual da mãe.
- Não se trata da vida da mãe, mas sim da do filho.
- Há dois progenitores, e não apenas um, que podem não estar de acordo entre si. Por que razão o pai não teria também uma palavra a dizer?
- O filho não é “propriedade” da mãe, nem do pai, nem de ninguém.
2) Despenalizar não é o mesmo que descriminalizar. Há em muitos casos atenuantes tão grandes que o aborto, tendo acontecido clandestinamente, não deveria ser punido. Mas não são todos os casos. Cada situação é diferente, por isso é que deve ser julgada em tribunal.
3) As condições de maior segurança em que se realiza um aborto legal não são razões válidas para descriminalizar incondicionalmente. Quem faz algo clandestinamente vai sofrer com isso, é evidente. Não teria esse problema se não abortasse!
4) Uma vida alheia só pode ser eliminada se houver alguma razão de importância SUPERIOR a essa vida. Como garantir que TODAS as mães agem de forma responsável? Tem de haver critérios objectivos estabelecidos por Lei que sejam rigorosamente verificados antes de se permitir um aborto.
5) O receio de hipotéticas dificuldades ou infelicidades futuras da criança e da respectiva mãe não é uma razão de valor mais alto do que a vida de um filho.
6) Na história de um ser humano há apenas três instantes perfeitamente identificáveis e consensualmente inquestionáveis: a concepção, o nascimento e a morte. Tudo o resto é uma evolução contínua, difusa. Por isso, na minha opinião, a sociedade só pode usar esses três instantes como referência para decisões deste calibre (vida ou morte). Outras referências seriam sempre mal definidas, pouco claras, não consensuais. É esse o carácter que deve ser dado à concepção: o de referência absoluta, tal como as outras duas. É "sagrada" neste sentido científico, e não no sentido religioso.
7) Não vai ser possível encontrar um consenso total sobre quais os valores mais altos que justificam um aborto. Portanto, na dúvida ou na discordância deve adoptar-se uma posição de prudência e defender a vida desde o momento em que ela se distingue da da mãe (mesmo sendo dela dependente) e se inicia o desenvolvimento de um novo ser humano: a concepção.
8) Haverá alguns casos específicos em que o consenso é possível quanto aos motivos e quanto aos prazos - nesses o aborto deve ser permitido por lei.
PS: Discussão interessante esta nos comentários de um texto no Blasfémias.
Tenho participado em alguns debates online, especialmente um no Barnabé. Aqui ficam os argumentos principais que tenho usado. As convicções religiosas não são relevantes para esta discussão e devem ser mantidas fora.
1) O aborto não pode ser considerado um problema da consciência individual da mãe.
- Não se trata da vida da mãe, mas sim da do filho.
- Há dois progenitores, e não apenas um, que podem não estar de acordo entre si. Por que razão o pai não teria também uma palavra a dizer?
- O filho não é “propriedade” da mãe, nem do pai, nem de ninguém.
2) Despenalizar não é o mesmo que descriminalizar. Há em muitos casos atenuantes tão grandes que o aborto, tendo acontecido clandestinamente, não deveria ser punido. Mas não são todos os casos. Cada situação é diferente, por isso é que deve ser julgada em tribunal.
3) As condições de maior segurança em que se realiza um aborto legal não são razões válidas para descriminalizar incondicionalmente. Quem faz algo clandestinamente vai sofrer com isso, é evidente. Não teria esse problema se não abortasse!
4) Uma vida alheia só pode ser eliminada se houver alguma razão de importância SUPERIOR a essa vida. Como garantir que TODAS as mães agem de forma responsável? Tem de haver critérios objectivos estabelecidos por Lei que sejam rigorosamente verificados antes de se permitir um aborto.
5) O receio de hipotéticas dificuldades ou infelicidades futuras da criança e da respectiva mãe não é uma razão de valor mais alto do que a vida de um filho.
6) Na história de um ser humano há apenas três instantes perfeitamente identificáveis e consensualmente inquestionáveis: a concepção, o nascimento e a morte. Tudo o resto é uma evolução contínua, difusa. Por isso, na minha opinião, a sociedade só pode usar esses três instantes como referência para decisões deste calibre (vida ou morte). Outras referências seriam sempre mal definidas, pouco claras, não consensuais. É esse o carácter que deve ser dado à concepção: o de referência absoluta, tal como as outras duas. É "sagrada" neste sentido científico, e não no sentido religioso.
7) Não vai ser possível encontrar um consenso total sobre quais os valores mais altos que justificam um aborto. Portanto, na dúvida ou na discordância deve adoptar-se uma posição de prudência e defender a vida desde o momento em que ela se distingue da da mãe (mesmo sendo dela dependente) e se inicia o desenvolvimento de um novo ser humano: a concepção.
8) Haverá alguns casos específicos em que o consenso é possível quanto aos motivos e quanto aos prazos - nesses o aborto deve ser permitido por lei.
PS: Discussão interessante esta nos comentários de um texto no Blasfémias.
2004/08/21
O Aborto
Já que estou em maré de temas difíceis, resolvi procurar alguns documentos que tinha escrito em 1998 na altura do Referendo do Aborto. Tinha organizado na Universidade Católica um fórum online sobre este tema que conseguiu considerável visibilidade nacional e participação muito alargada.
Estou cansado deste debate, devo dizer... As pessoas esquecem-se de quase tudo o que elas próprias pensaram, discutiram e aprenderam antes, e repetem sempre os mesmos erros. Quando recentemente se levantou este assunto novamente, voltei a ouvir as mesmas asneiras de todos os lados, seja a favor ou contra a legalização.
Aqui fica então o texto, com seis anos, cumprindo parte do que prometi aqui. A História repete-se! Quando tiver tempo hei-de voltar a colocar online cópia completa deste fórum que moderei. Especialmente interessantes são as citações de figuras públicas e de ilustres desconhecidos que na altura compilei.
-----
AS MINHAS CONCLUSÕES PESSOAIS
É meu dever, após a conclusão deste debate que coordenei no Fórum da Universidade Católica, apresentar as conclusões a que cheguei. Vou fazê-lo de forma resumida, recorrendo a um texto base com os principais tópicos e a apontadores para a argumentação mais extensa. Li novamente todas as participações e retirei delas as razões que julgo mais relevantes; por vezes uso essas mesmas razões para justificar uma posição inversa à que os autores das citações apresentadas defendem.
a) Não está em causa neste momento saber se o aborto se justifica em algumas circunstâncias, mas sim se deve ser liberalizado sem restrições até às 10 semanas. É esse o SIM ou o NÃO que nos é pedido. Não se trata de defender a prisão das mulheres que abortam.
b) As razões invocadas para o SIM ou para o NÃO variam muito de pessoa para pessoa: "todos iguais, todos diferentes" :-)
c) Não há consenso sobre a qualidade de pessoa de um feto com 10 semanas. Este simples facto é um argumento para o NÃO: na dúvida, protege-se a vida.
d) O aborto não é um problema da consciência individual:
- não se trata da vida da mãe, mas sim do filho
- o sacrifício de uma vida só pode ser aceite se existirem valores mais altos do que ele e essa avaliação não pode ser deixada apenas à mãe
e) Uma hipotética melhoria do problema de saúde pública que é o aborto não justifica a sua liberalização sem regras até às 10 semanas. Os fins nunca justificam os meios.
f) Despenalizar não é o mesmo que descriminalizar: justifica-se despenalizar em alguns casos, mas descriminalizar significa renunciar a regras mínimas de respeito pela vida.
g) Só faz sentido falar em Tolerância quando há Lei. Na aplicação da lei é que se deve usar a tolerância, mas deve haver lei primeiro.
h) O SIM é ineficaz:
- desresponsabiliza o Estado dos seus deveres de apoio a quem precisa
- não há condições práticas para a realização de abortos em tempo útil nos hospitais públicos
- não resolve os problemas de quem não tem recursos para recorrer a clínicas privadas
- não ataca as causas que levam ao aborto (mesmo o legal)
- não acaba com o aborto clandestino
i) Há muitos argumentos errados a favor do SIM e do NÃO. Não se deve liberalizar o aborto nem recusá-lo só para:
- contrariar a Igreja ou obedecer-lhe
- impedir que alguém ganhe dinheiro com negócios clandestinos ou legais
- irritar os hipócritas de qualquer um dos lados
- evitar que outros obtenham dividendos políticos
j) Há de facto muita hipocrisia em jogo, quer do lado do SIM quer do do NÃO. A actual situação é culpa de todos - que ninguém deixe de assumir a sua responsabilidade. E que todos explicitem claramente o que pretendem com o SIM e com o NÃO.
l) A posição da Igreja é sempre uma referência, boa ou má, mas não se justifica a obsessão com que alguns a invocam. Estamos afinal a tratar de leis de um Estado laico.
m) Seja SIM ou seja NÃO, o verdadeiro problema está nas causas a montante do aborto. Quanto a isso, não há referendo que as resolva. Agora estamos todos conscientes quanto a este assunto - há que agir e não empurrar tudo para as costas do Estado.
Pode encontrar aqui um conjunto de citações que me serviram de referência para este texto.
Vote! De preferência vote NÃO.
Mas seja SIM, seja NÃO ou seja voto em branco, vá votar!
Estou cansado deste debate, devo dizer... As pessoas esquecem-se de quase tudo o que elas próprias pensaram, discutiram e aprenderam antes, e repetem sempre os mesmos erros. Quando recentemente se levantou este assunto novamente, voltei a ouvir as mesmas asneiras de todos os lados, seja a favor ou contra a legalização.
Aqui fica então o texto, com seis anos, cumprindo parte do que prometi aqui. A História repete-se! Quando tiver tempo hei-de voltar a colocar online cópia completa deste fórum que moderei. Especialmente interessantes são as citações de figuras públicas e de ilustres desconhecidos que na altura compilei.
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AS MINHAS CONCLUSÕES PESSOAIS
É meu dever, após a conclusão deste debate que coordenei no Fórum da Universidade Católica, apresentar as conclusões a que cheguei. Vou fazê-lo de forma resumida, recorrendo a um texto base com os principais tópicos e a apontadores para a argumentação mais extensa. Li novamente todas as participações e retirei delas as razões que julgo mais relevantes; por vezes uso essas mesmas razões para justificar uma posição inversa à que os autores das citações apresentadas defendem.
a) Não está em causa neste momento saber se o aborto se justifica em algumas circunstâncias, mas sim se deve ser liberalizado sem restrições até às 10 semanas. É esse o SIM ou o NÃO que nos é pedido. Não se trata de defender a prisão das mulheres que abortam.
b) As razões invocadas para o SIM ou para o NÃO variam muito de pessoa para pessoa: "todos iguais, todos diferentes" :-)
c) Não há consenso sobre a qualidade de pessoa de um feto com 10 semanas. Este simples facto é um argumento para o NÃO: na dúvida, protege-se a vida.
d) O aborto não é um problema da consciência individual:
- não se trata da vida da mãe, mas sim do filho
- o sacrifício de uma vida só pode ser aceite se existirem valores mais altos do que ele e essa avaliação não pode ser deixada apenas à mãe
e) Uma hipotética melhoria do problema de saúde pública que é o aborto não justifica a sua liberalização sem regras até às 10 semanas. Os fins nunca justificam os meios.
f) Despenalizar não é o mesmo que descriminalizar: justifica-se despenalizar em alguns casos, mas descriminalizar significa renunciar a regras mínimas de respeito pela vida.
g) Só faz sentido falar em Tolerância quando há Lei. Na aplicação da lei é que se deve usar a tolerância, mas deve haver lei primeiro.
h) O SIM é ineficaz:
- desresponsabiliza o Estado dos seus deveres de apoio a quem precisa
- não há condições práticas para a realização de abortos em tempo útil nos hospitais públicos
- não resolve os problemas de quem não tem recursos para recorrer a clínicas privadas
- não ataca as causas que levam ao aborto (mesmo o legal)
- não acaba com o aborto clandestino
i) Há muitos argumentos errados a favor do SIM e do NÃO. Não se deve liberalizar o aborto nem recusá-lo só para:
- contrariar a Igreja ou obedecer-lhe
- impedir que alguém ganhe dinheiro com negócios clandestinos ou legais
- irritar os hipócritas de qualquer um dos lados
- evitar que outros obtenham dividendos políticos
j) Há de facto muita hipocrisia em jogo, quer do lado do SIM quer do do NÃO. A actual situação é culpa de todos - que ninguém deixe de assumir a sua responsabilidade. E que todos explicitem claramente o que pretendem com o SIM e com o NÃO.
l) A posição da Igreja é sempre uma referência, boa ou má, mas não se justifica a obsessão com que alguns a invocam. Estamos afinal a tratar de leis de um Estado laico.
m) Seja SIM ou seja NÃO, o verdadeiro problema está nas causas a montante do aborto. Quanto a isso, não há referendo que as resolva. Agora estamos todos conscientes quanto a este assunto - há que agir e não empurrar tudo para as costas do Estado.
Pode encontrar aqui um conjunto de citações que me serviram de referência para este texto.
Vote! De preferência vote NÃO.
Mas seja SIM, seja NÃO ou seja voto em branco, vá votar!
2004/08/13
A legalização da prostituição
Já é habitual defenderem-se posições certas pelas razões erradas...
A legalização da prostituição é mais um caso. As razões "pragmáticas" referidas por Paulo Gorjão não me parecem válidas.
Há dois casos distintos a analisar.
- O primeiro é quando a prática da prostituição foi um último recurso a que as pessoas em causa se submeteram numa situação de miséria. Isso revela que o Estado e a sociedade em geral falharam no seu papel de apoio a quem precisa. A solução não é então legalizar a prostituição, mas sim proporcionar as condições suficientes para que quem se prostitui possa deixar de o fazer. Justificar-se-ia despenalizar, não legalizar. Legalizar poderia ser uma forma de o Estado se demitir dos seus deveres.
- O segundo caso é completamente diferente e já o tinha usado como exemplo no comentário anterior. Apesar de tudo há quem se prostitua por opção, inércia ou "comodismo", e já não por estrita necessidade. Por mais mau gosto que possa revelar, é um direito dos cidadãos. Com que bases a sociedade deverá proibir este negócio entre pessoas adultas? Em considerações morais sobre a vida privada?
É por causa deste segundo caso que eu sou a favor da legalização. Não por quaisquer razões pragmáticas.
A legalização da prostituição é mais um caso. As razões "pragmáticas" referidas por Paulo Gorjão não me parecem válidas.
Há dois casos distintos a analisar.
- O primeiro é quando a prática da prostituição foi um último recurso a que as pessoas em causa se submeteram numa situação de miséria. Isso revela que o Estado e a sociedade em geral falharam no seu papel de apoio a quem precisa. A solução não é então legalizar a prostituição, mas sim proporcionar as condições suficientes para que quem se prostitui possa deixar de o fazer. Justificar-se-ia despenalizar, não legalizar. Legalizar poderia ser uma forma de o Estado se demitir dos seus deveres.
- O segundo caso é completamente diferente e já o tinha usado como exemplo no comentário anterior. Apesar de tudo há quem se prostitua por opção, inércia ou "comodismo", e já não por estrita necessidade. Por mais mau gosto que possa revelar, é um direito dos cidadãos. Com que bases a sociedade deverá proibir este negócio entre pessoas adultas? Em considerações morais sobre a vida privada?
É por causa deste segundo caso que eu sou a favor da legalização. Não por quaisquer razões pragmáticas.
2004/08/12
Tradições e temas complexos
No Gildot surgiu recentemente um debate sobre a triste história do Terràvista. No meio da conversa levantou-se outro tema especialmente complexo e a respeito do qual resolvi escrever umas linhas.
Dizia-se a certa altura que "a homossexualidade é tão normal como a heterossexualidade".
Se fosse "tão normal", 50% da população era homossexual... Uma coisa é aceitar a homossexualidade, outra é dizer que homossexualidade e heterossexualidade é tudo a mesma coisa.
Escreveu-se ainda que a homossexualidade "não é uma doença, ou seja, um/a homossexual não tem nada de errado".
Sim e não. Os/as "homossexuais" (já explico a razão das aspas) são como as outras pessoas: há as que têm "algo de errado" e as que são "saudáveis".
Há dois tipos de "homossexuais": os "verdadeiros" que possuem uma tendência natural para gostar do mesmo sexo (que acredito sejam uma percentagem bastante pequena da população) e os "falsos", que desenvolveram uma suposta "apetência homossexual" como resultado de algum desequilíbrio na sua evolução psíquica. Aliás, o equivalente também se poderá passar com os "heterossexuais".
Estou por isso firmemente convicto de que grande parte dos "falsos" é curável (ou pelo menos que devia tentar a cura), mas que a sociedade confunde os dois tipos e deixou de analisar o caso com o rigor e seriedade que era exigível. Qualquer desequilíbrio é mau e deve ser ultrapassado.
Quando vejo as "paradas de orgulho gay", os casamentos gay com homens em vestido de noiva, etc., é difícil de acreditar que sejam pessoas mentalmente saudáveis! O problema não é serem manifestações homossexuais, o caso seria o mesmo se fossem palhaçadas heterossexuais como também há muitas (por exemplo alguns culturistas mais fanáticos, com o corpo todo deformado, a dizer "agora é que me sinto Homem!"). Os "verdadeiros" não precisam de fazer tristes figuras em actividades de gosto mais do que duvidoso, têm um equilíbrio mental bem mais saudável que as dispensa. É evidente que também há "verdadeiros" que desenvolveram alguns traumas pelo facto de serem discriminados pela sociedade - o desequilíbrio seria então consequência e não causa da sua homossexualidade.
Por isso, embora não tenha feito nenhum estudo científico que me forneça números, a minha percepção do mundo diz-me que as pessoas verdadeiramente homossexuais são relativamente raras.
Já agora, ligado a este tipo de "preconceitos sociais" do mundo ocidental, valeria a pena discutir também a poligamia e o incesto entre adultos. Não me parece adequado pensar na homossexualidade sem introduzir igualmente estes dois assuntos. Por que razão há-de a sociedade tratá-los de forma diferente?
--
PS: Um esclarecimento adicional - Independentemente de se concordar ou não com uma determinada situação, é preciso que haja razões muito fortes para proibir qualquer coisa. Eu não encontro essas razões fortes para proibir uniões (nunca lhes chamaria casamentos) homossexuais como casos de "economia comum" para fins fiscais, por exemplo.
E por que razão é que se há-de proibir a poligamia, que é comum noutras zonas do mundo? Eu não a defendo como opção de vida, mas com que direito a sociedade pretende regular este aspecto da vida privada de pessoas adultas?
Outro caso ainda: quem é que apoia a prostituição? Mas muitos (como eu) defendem a sua legalização porque apesar de tudo há quem se prostitua por opção, inércia ou "comodismo" (é um direito...), e já não por estrita necessidade.
Dizia-se a certa altura que "a homossexualidade é tão normal como a heterossexualidade".
Se fosse "tão normal", 50% da população era homossexual... Uma coisa é aceitar a homossexualidade, outra é dizer que homossexualidade e heterossexualidade é tudo a mesma coisa.
Escreveu-se ainda que a homossexualidade "não é uma doença, ou seja, um/a homossexual não tem nada de errado".
Sim e não. Os/as "homossexuais" (já explico a razão das aspas) são como as outras pessoas: há as que têm "algo de errado" e as que são "saudáveis".
Há dois tipos de "homossexuais": os "verdadeiros" que possuem uma tendência natural para gostar do mesmo sexo (que acredito sejam uma percentagem bastante pequena da população) e os "falsos", que desenvolveram uma suposta "apetência homossexual" como resultado de algum desequilíbrio na sua evolução psíquica. Aliás, o equivalente também se poderá passar com os "heterossexuais".
Estou por isso firmemente convicto de que grande parte dos "falsos" é curável (ou pelo menos que devia tentar a cura), mas que a sociedade confunde os dois tipos e deixou de analisar o caso com o rigor e seriedade que era exigível. Qualquer desequilíbrio é mau e deve ser ultrapassado.
Quando vejo as "paradas de orgulho gay", os casamentos gay com homens em vestido de noiva, etc., é difícil de acreditar que sejam pessoas mentalmente saudáveis! O problema não é serem manifestações homossexuais, o caso seria o mesmo se fossem palhaçadas heterossexuais como também há muitas (por exemplo alguns culturistas mais fanáticos, com o corpo todo deformado, a dizer "agora é que me sinto Homem!"). Os "verdadeiros" não precisam de fazer tristes figuras em actividades de gosto mais do que duvidoso, têm um equilíbrio mental bem mais saudável que as dispensa. É evidente que também há "verdadeiros" que desenvolveram alguns traumas pelo facto de serem discriminados pela sociedade - o desequilíbrio seria então consequência e não causa da sua homossexualidade.
Por isso, embora não tenha feito nenhum estudo científico que me forneça números, a minha percepção do mundo diz-me que as pessoas verdadeiramente homossexuais são relativamente raras.
Já agora, ligado a este tipo de "preconceitos sociais" do mundo ocidental, valeria a pena discutir também a poligamia e o incesto entre adultos. Não me parece adequado pensar na homossexualidade sem introduzir igualmente estes dois assuntos. Por que razão há-de a sociedade tratá-los de forma diferente?
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PS: Um esclarecimento adicional - Independentemente de se concordar ou não com uma determinada situação, é preciso que haja razões muito fortes para proibir qualquer coisa. Eu não encontro essas razões fortes para proibir uniões (nunca lhes chamaria casamentos) homossexuais como casos de "economia comum" para fins fiscais, por exemplo.
E por que razão é que se há-de proibir a poligamia, que é comum noutras zonas do mundo? Eu não a defendo como opção de vida, mas com que direito a sociedade pretende regular este aspecto da vida privada de pessoas adultas?
Outro caso ainda: quem é que apoia a prostituição? Mas muitos (como eu) defendem a sua legalização porque apesar de tudo há quem se prostitua por opção, inércia ou "comodismo" (é um direito...), e já não por estrita necessidade.
2004/08/10
O interesse do "pobre país"
Pacheco Pereira escreve no Abrupto sobre o "interesse público" a propósito do poder corporativo de jornalistas e magistrados.
Subscrevo genericamente o que está lá escrito, embora não usasse um registo tão pessimista. O "interesse público" seria o "público" tratar dos assuntos do seu interesse... Mas aquilo por que o "público" normalmente se interessa não é do seu verdadeiro interesse (e nem eu acho que seja minimamente interessante).
Por isso é que não concordo nada com o refrão "pobre país" usado no Abrupto. Pelo contrário, pelos vistos somos demasiado ricos para nos podermos dar ao luxo de desprezar aquilo que importa. Estivéssemos numa situação realmente difícil e o "interesse público" seria perfeitamente evidente para todos.
Subscrevo genericamente o que está lá escrito, embora não usasse um registo tão pessimista. O "interesse público" seria o "público" tratar dos assuntos do seu interesse... Mas aquilo por que o "público" normalmente se interessa não é do seu verdadeiro interesse (e nem eu acho que seja minimamente interessante).
Por isso é que não concordo nada com o refrão "pobre país" usado no Abrupto. Pelo contrário, pelos vistos somos demasiado ricos para nos podermos dar ao luxo de desprezar aquilo que importa. Estivéssemos numa situação realmente difícil e o "interesse público" seria perfeitamente evidente para todos.
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