Admito como verdadeira e rigorosa
uma notícia saída na imprensa que anuncia o início iminente das obras de reabilitação urbana no troco final (ocidental) da Avenida da Boavista, no Porto.
O executivo da
Câmara Municipal do Porto tem toda a legitimidade para decidir sobre esta matéria, desde que cumpra a Lei. Foi eleito, e a Democracia é isto mesmo. Por mais movimentações e participação cívica que exista, só uma eleição é vinculativa. Por isso, caso o executivo não queira seguir as recomendações de bom senso que surgiram no debate entretanto havido, resta ao “povo” esperar pelas próximas autárquicas.
Atendendo à discussão pública sobre este tema (que foi aliás saudavelmente incentivada também pela autarquia e pela Metro do Porto), espera-se do executivo alguma informação formal sobre a obra que supostamente vai começar. Nem que seja por simples educação e civismo.
Recuemos no tempo. O que se terá passado?
Havia um canal central desaproveitado na Avenida da Boavista. Havia um Metro que interessava expandir, e um troço sobrecarregado que importava aliviar noutro ponto da rede. À primeira vista, a construção de uma linha nesse canal parecia uma opção óbvia e relativamente simples. À primeira vista.
Contactam-se alguns especialistas de transportes, que fazem estudos sobre o impacto desta solução. Aí o cenário começa a complicar-se: afinal vai ser preciso desviar tráfego para zonas residenciais, afinal vão ser necessárias expropriações que não se sabe quanto custam, afinal o actual viaduto no Parque da Cidade não serve e terá que ser construído outro, afinal o troço Trindade - Senhora da Hora não é significativamente afectado, etc. Mas enfim, aparentemente do mal o menos...
Entretanto já havia outra iniciativa a desenvolver-se: o
Grande Prémio da Boavista, prova automobilística lançada recentemente pela autarquia.
A Linha da Boavista vinha mesmo a calhar, pois empurravam-se os custos todos para a Metro do Porto:
- a reabilitação urbana (tão necessária) da Avenida da Boavista
- a preparação das estruturas para o Grande Prémio
- o pagamento das prováveis indemnizações à Imoloc por causa da situação pouco clara quanto aos direitos de propriedade dos terrenos do Parque da Cidade.
Juntava-se o útil ao agradável.
Ao mesmo tempo aparecem uns “profissionais do contra” com visibilidade mediática que se reúnem no blog “
A Baixa do Porto”. Mas apesar de tudo parecia gente relativamente séria… Até já tinham tido um papel importante na aprovação da Sociedade de Reabilitação Urbana! Por isso o executivo pensa: sendo esta opção pela Linha da Boavista correcta, não há nada como um bom debate público, com a ajuda do talento e competência do Prof. Oliveira Marques da
Metro do Porto, para que se “dê a volta” à opinião pública. Até aqui tudo relativamente bem.
O mal foi que havia uma série enorme de inconvenientes graves que não estavam devidamente ponderados na Linha da Boavista. O debate público veio tornar absolutamente evidente que
este projecto concreto proposto pela Metro do Porto era completamente desadequado.
O executivo ficou na posição do jogador que foi apostar às escondidas no Casino e que já estourou as economias da família. O que fazer? Voltar para casa, assumir o erro e trabalhar para recuperar as perdas, ou hipotecar o apartamento e voltar a apostar à espera de um milagre?
Decide Rui Rio tentar a “fuga para a frente”. Manda avançar as obras de reabilitação da Avenida sem ter a garantia de que a Linha da Boavista vai ser aprovada pela Administração Central, sem saber se o estudo de impacto ambiental vai ser preciso, consciente de que esta decisão é tecnicamente errada. Com ordem de estar tudo pronto a tempo do Grande Prémio, assumido sonho do autarca. A Metro do Porto responsabiliza-se entretanto pelo respectivo pagamento mas apenas no pressuposto de que a linha é realmente aprovada... Se não for, a factura terá de ir parar a outro destinatário.
Conclusão: nesta altura a “hipoteca” parece que já vai em 6 milhões de euros... E isto é só o princípio, antes de “aquecer os motores”. Com este comportamento, também já não se pode contar com Rui Rio para renovar o PSD.