As “indústrias criativas” não existem. O que existe é criatividade nas indústrias, e nos serviços também.
A minha paciência para teoria sobre “indústrias criativas” já se esgotou. As “indústrias criativas” não existem. O que existe é criatividade nas indústrias, e nos serviços também. Há um ano escrevi sobre a ameaça dos “encarregados de educação” do empreendedorismo alheio que não arriscam eles próprios criar o seu negócio, sublinhando que criatividade passará pelas novas modas digitais mas também por necessidades como reabilitação urbana, apoio social, funcionamento da justiça, simplificação de regulamentos...
Não haverá criatividade que chegue para fazer baixar o estacionamento automóvel irregular? Nenhuma alma inventiva descobrirá maneira de aproveitar os espaços urbanos com capacidade agrícola? Com tantos desempregados ociosos, ninguém conseguirá organizar acções (ao menos de voluntariado) onde eles tenham interesse em ser úteis? A desocupação e degradação do edificado dos centros urbanos é um problema complexo demais para estas “indústrias”? Uma cidade não passa a ser atractiva pelo facto de haver animações avulsas do espaço público, umas vezes bem conseguidas, outras nem por isso. Nem se provoca impacto económico sensível no país com mais meia dúzia de micro-empresas ou associações temáticas sem nenhum potencial para atingirem grande dimensão.
A inovação está provavelmente muito mais no talento para pegar em ideias simples (se calhar já antigas e por isso pouco "fashion") que sejam eficazes. Ou seja, a capacidade criativa tem de estar embebida na economia “normal”, nas relações sociais, nas nossas rotinas, e não num mundo à parte onde mentes iluminadas lançam ideias para outros eventualmente colherem. Neste contexto, vale a pena medir os resultados da acção de entidades como a ADDICT. A criatividade chegou ao menos para estabelecer critérios de avaliação? Divulguem-se.
(publicado no JN de 2010/06/03)
2010/06/04
2010/05/21
Sociedade instantânea
Uma instituição milenar como a Igreja Católica compreende bem que há tempo para além do nosso tempo
Tenho defendido que os principais problemas do país são um sistema de justiça anedótico, leis e regulamentos perfeitos para sabotar uma vida normal em sociedade, e também o peso mastodôntico do Estado. Receio agora ter de acrescentar mais um: o facto de não se dar tempo ao tempo. “Devagar, que temos pressa.”
Vivemos num mundo que aspira a ser instantâneo, movido por acções de efeito imediato. Desesperados com as contrariedades, perdemos a persistência junto com a paciência. Concentramo-nos no presente, no território próximo, nas pessoas conhecidas. Daniel Innerarity esta semana em Serralves, numa convergência (aparentemente sem que ele se tivesse apercebido disso) com a visão do mundo de Bento XVI, referia o “triunfo das insignificâncias”, a “tirania do presente”, a “expropriação do futuro” que fazemos às gerações vindouras na ausência de quem as defenda. Sugeria ele então uma “colectivização intergeracional do tempo”, estendendo a atenção do nosso próximo (no sentido bíblico) também ao “nosso longínquo”. Uma instituição milenar como a Igreja Católica compreende bem que há tempo para além do nosso tempo.
Não podia este tema vir mais a propósito da situação de Portugal. Perante um Executivo moribundo, devemos ter a prudência de recusar um amanhã que hipoteque o depois de amanhã. Há um tempo para ajudar o Governo e um tempo para substituir o Governo. Cada coisa a seu tempo. Os efeitos de curto prazo nos mercados internacionais, perante um sufoco de tesouraria do país, recomendam até um aumento de impostos. Por uma vez, acredito nos especialistas. Mas não me vou esquecer de lhes lembrar que esse aumento é temporário porque temos pressa do futuro que ainda não houve tempo de construir. Deixemos a tempestade financeira acalmar. Vai ser aí que o Governo termina o seu tempo.
(publicado no JN de 2010/05/20)
Tenho defendido que os principais problemas do país são um sistema de justiça anedótico, leis e regulamentos perfeitos para sabotar uma vida normal em sociedade, e também o peso mastodôntico do Estado. Receio agora ter de acrescentar mais um: o facto de não se dar tempo ao tempo. “Devagar, que temos pressa.”
Vivemos num mundo que aspira a ser instantâneo, movido por acções de efeito imediato. Desesperados com as contrariedades, perdemos a persistência junto com a paciência. Concentramo-nos no presente, no território próximo, nas pessoas conhecidas. Daniel Innerarity esta semana em Serralves, numa convergência (aparentemente sem que ele se tivesse apercebido disso) com a visão do mundo de Bento XVI, referia o “triunfo das insignificâncias”, a “tirania do presente”, a “expropriação do futuro” que fazemos às gerações vindouras na ausência de quem as defenda. Sugeria ele então uma “colectivização intergeracional do tempo”, estendendo a atenção do nosso próximo (no sentido bíblico) também ao “nosso longínquo”. Uma instituição milenar como a Igreja Católica compreende bem que há tempo para além do nosso tempo.
Não podia este tema vir mais a propósito da situação de Portugal. Perante um Executivo moribundo, devemos ter a prudência de recusar um amanhã que hipoteque o depois de amanhã. Há um tempo para ajudar o Governo e um tempo para substituir o Governo. Cada coisa a seu tempo. Os efeitos de curto prazo nos mercados internacionais, perante um sufoco de tesouraria do país, recomendam até um aumento de impostos. Por uma vez, acredito nos especialistas. Mas não me vou esquecer de lhes lembrar que esse aumento é temporário porque temos pressa do futuro que ainda não houve tempo de construir. Deixemos a tempestade financeira acalmar. Vai ser aí que o Governo termina o seu tempo.
(publicado no JN de 2010/05/20)
2010/05/07
O Mistério da Couve Desperdiçada
Mesmo sem esperar por alterações às regras dos apoios sociais, as juntas de freguesia saberiam cativar com prémios não financeiros quem pegar na sachola
Faltam programas de utilização sistemática dos solos disponíveis para fins agrícolas nos centros urbanos. Algo que faça sentido dos pontos de vista económico, ambiental e, importantíssimo, da integração social. Este último aspecto é até o que mais impacto poderia ter. Que melhor opção existe para dar trabalho a quem não tem outras alternativas devido à idade, a falta de formação, ou a escassez de empregos?
Basta consultar imagens de satélite para se constatar a impressionante mancha verde no interior de inúmeros quarteirões actualmente pouco cuidados. E, no caso do Porto, tanta água que sabemos correr em ribeiras no subsolo! Mas, ao calcorrear essas ruas das cidades, encontra-se gente resignada a uma vida dependente do Rendimento Social de Inserção que, mole, nem trata da terra que tem atrás de casa nem faz manutenção aos edifícios – não se decide a ser útil.
É tarefa espinhosa convencer alguém a trabalhar se não tiver incentivos para tal. Mas, mesmo sem esperar por alterações às regras dos apoios sociais, as juntas de freguesia saberiam cativar com prémios não financeiros quem pegar na sachola (além da óbvia retribuição em produtos agrícolas). Apesar de eventuais boas intenções da Administração Pública, é aflitivo ver como se desperdiçam oportunidades simples que estão ao nosso alcance. Envolvam-se autarquias, IPSS, mercados tradicionais e cadeias de abastecimento dos supermercados de proximidade. Reunam-se competências dispersas para conseguir lançar explorações de agricultura urbana em pequena escala em conjunto com os proprietários dos muitos terrenos escondidos (ou nem por isso) no interior das cidades. Tentemos resolver problema a problema, sem adiarmos até que apareça uma qualquer duvidosa Grande Estratégia. Esta agricultura também é uma “indústria criativa”.
(publicado no JN de 2010/05/06)
Faltam programas de utilização sistemática dos solos disponíveis para fins agrícolas nos centros urbanos. Algo que faça sentido dos pontos de vista económico, ambiental e, importantíssimo, da integração social. Este último aspecto é até o que mais impacto poderia ter. Que melhor opção existe para dar trabalho a quem não tem outras alternativas devido à idade, a falta de formação, ou a escassez de empregos?
Basta consultar imagens de satélite para se constatar a impressionante mancha verde no interior de inúmeros quarteirões actualmente pouco cuidados. E, no caso do Porto, tanta água que sabemos correr em ribeiras no subsolo! Mas, ao calcorrear essas ruas das cidades, encontra-se gente resignada a uma vida dependente do Rendimento Social de Inserção que, mole, nem trata da terra que tem atrás de casa nem faz manutenção aos edifícios – não se decide a ser útil.
É tarefa espinhosa convencer alguém a trabalhar se não tiver incentivos para tal. Mas, mesmo sem esperar por alterações às regras dos apoios sociais, as juntas de freguesia saberiam cativar com prémios não financeiros quem pegar na sachola (além da óbvia retribuição em produtos agrícolas). Apesar de eventuais boas intenções da Administração Pública, é aflitivo ver como se desperdiçam oportunidades simples que estão ao nosso alcance. Envolvam-se autarquias, IPSS, mercados tradicionais e cadeias de abastecimento dos supermercados de proximidade. Reunam-se competências dispersas para conseguir lançar explorações de agricultura urbana em pequena escala em conjunto com os proprietários dos muitos terrenos escondidos (ou nem por isso) no interior das cidades. Tentemos resolver problema a problema, sem adiarmos até que apareça uma qualquer duvidosa Grande Estratégia. Esta agricultura também é uma “indústria criativa”.
(publicado no JN de 2010/05/06)
2010/04/23
A barreira nocturna dos Aliados
Uma solução, contudo, já foi proposta publicamente pelo Arq.º Pulido Valente: concentrar os dois sentidos de trânsito na faixa de rodagem a poente
No passado fim de semana participei numa visita à Baixa e ao Centro Histórico do Porto entre as onze da noite e as três da madrugada (publiquei breve registo em www.porto.taf.net). As pessoas ligadas à Faculdade de Letras que simpaticamente a organizaram, e que têm estudado com pormenor o que se passa na cidade, confirmaram os receios que sinto já há longo tempo: a Avenida dos Aliados divide vincadamente a “noite” do lado Oriental e a “noite” do lado Ocidental, prejudicando a vivência que seria possível sem esta barreira. Mesmo durante o dia, as recentes alterações impostas por Siza e Souto Moura induziram um aumento do tráfego automóvel, o que só por si desqualifica a zona.
Uma solução, contudo, já foi proposta publicamente pelo Arq.º Pulido Valente: concentrar os dois sentidos de trânsito na faixa de rodagem a poente e deixar a via a nascente, numa configuração semelhante à da Rua do Bonjardim em frente ao Rivoli, reservada para peões e transportes públicos. Criar-se-á assim um espaço contínuo desde a Praça D. João I, tornando viável o uso da placa central dos Aliados para esplanadas e promovendo a sua ocupação no dia-a-dia, que não apenas no S. João, nas vitórias do FCPorto ou nas vindas do Papa.
Não se compreende também o total desleixo nocturno nos locais mais frequentados. Praça Filipa de Lencastre, Rua Galeria de Paris, Travessa de Cedofeita e locais adjacentes são depósitos de copos de plástico ou urinóis ao ar livre. O estacionamento é caótico. A câmara e as juntas de freguesia que se entendam para actuar em coordenação: trata-se até de poupar dinheiro, pois a vigilância 24h por dia evita custos bem mais altos de limpeza e reparação posterior dos estragos. Todos ficarão beneficiados. Assim como agora está, isto não é usar o espaço público na movida, é confiscá-lo.
(publicado no JN de 2010/04/22)
No passado fim de semana participei numa visita à Baixa e ao Centro Histórico do Porto entre as onze da noite e as três da madrugada (publiquei breve registo em www.porto.taf.net). As pessoas ligadas à Faculdade de Letras que simpaticamente a organizaram, e que têm estudado com pormenor o que se passa na cidade, confirmaram os receios que sinto já há longo tempo: a Avenida dos Aliados divide vincadamente a “noite” do lado Oriental e a “noite” do lado Ocidental, prejudicando a vivência que seria possível sem esta barreira. Mesmo durante o dia, as recentes alterações impostas por Siza e Souto Moura induziram um aumento do tráfego automóvel, o que só por si desqualifica a zona.
Uma solução, contudo, já foi proposta publicamente pelo Arq.º Pulido Valente: concentrar os dois sentidos de trânsito na faixa de rodagem a poente e deixar a via a nascente, numa configuração semelhante à da Rua do Bonjardim em frente ao Rivoli, reservada para peões e transportes públicos. Criar-se-á assim um espaço contínuo desde a Praça D. João I, tornando viável o uso da placa central dos Aliados para esplanadas e promovendo a sua ocupação no dia-a-dia, que não apenas no S. João, nas vitórias do FCPorto ou nas vindas do Papa.
Não se compreende também o total desleixo nocturno nos locais mais frequentados. Praça Filipa de Lencastre, Rua Galeria de Paris, Travessa de Cedofeita e locais adjacentes são depósitos de copos de plástico ou urinóis ao ar livre. O estacionamento é caótico. A câmara e as juntas de freguesia que se entendam para actuar em coordenação: trata-se até de poupar dinheiro, pois a vigilância 24h por dia evita custos bem mais altos de limpeza e reparação posterior dos estragos. Todos ficarão beneficiados. Assim como agora está, isto não é usar o espaço público na movida, é confiscá-lo.
(publicado no JN de 2010/04/22)
2010/04/09
Nuclear: sempre os mesmos erros
Em vez de apostar na oferta de energia, é preferível investir um montante equivalente na redução da procura, com resultados decerto até mais compensadores
A hipótese de construção de uma central nuclear em Portugal só se explica porque quem a defende, estando de boa fé, se entusiasmou com o assunto sem reflectir bem nele.
1) Por menor que seja o risco, um acidente numa central nuclear pode ter consequências absolutamente catastróficas. Temos centrais aqui à nossa beira em Espanha, mas "perdidos por cem, perdidos por mil" não é argumento. Além de falha técnica ou humana, há sempre vulnerabilidade a acções terroristas - que belo alvo!
2) A energia produzida por uma central nuclear é barata. É. Se não considerarmos os custos de tratamento e armazenagem (por uma eternidade, literalmente) dos resíduos radioactivos para os quais, aliás, não há nenhuma boa solução. Se não considerarmos os custos de vigilância e prevenção de acidentes/atentados. Etc, etc.
3) Vamos confiar no Estado para gerir um processo destes? Vamos entregar os estudos ao mesmo tipo de especialistas que defendeu a Ota ou o TGV? Não venham dizer que se consegue fazer tudo com investimento privado, porque é inevitável grande envolvimento público, directo ou indirecto.
4) Em vez de apostar na oferta de energia, é preferível investir um montante equivalente na redução da procura, com resultados decerto até mais compensadores.
5) Uma central nuclear em Portugal, e em particular no Douro onde já se chegou a ameaçar, arruina completamente a imagem de ambiente de qualidade que pretendemos "vender". Já se calculou o custo disso?
6) Enquanto houver alternativas, mesmo que "mais caras" numa análise simplista, a prudência impõe soluções diferentes. Talvez se consiga adiar por algumas dezenas de anos o recurso à fissão nuclear produzida localmente (nem que seja recorrendo à importação de energia!), até que esteja disponível a tecnologia de fusão nuclear, essa sim limpa e segura.
(publicado no JN de 2010/04/08)
A hipótese de construção de uma central nuclear em Portugal só se explica porque quem a defende, estando de boa fé, se entusiasmou com o assunto sem reflectir bem nele.
1) Por menor que seja o risco, um acidente numa central nuclear pode ter consequências absolutamente catastróficas. Temos centrais aqui à nossa beira em Espanha, mas "perdidos por cem, perdidos por mil" não é argumento. Além de falha técnica ou humana, há sempre vulnerabilidade a acções terroristas - que belo alvo!
2) A energia produzida por uma central nuclear é barata. É. Se não considerarmos os custos de tratamento e armazenagem (por uma eternidade, literalmente) dos resíduos radioactivos para os quais, aliás, não há nenhuma boa solução. Se não considerarmos os custos de vigilância e prevenção de acidentes/atentados. Etc, etc.
3) Vamos confiar no Estado para gerir um processo destes? Vamos entregar os estudos ao mesmo tipo de especialistas que defendeu a Ota ou o TGV? Não venham dizer que se consegue fazer tudo com investimento privado, porque é inevitável grande envolvimento público, directo ou indirecto.
4) Em vez de apostar na oferta de energia, é preferível investir um montante equivalente na redução da procura, com resultados decerto até mais compensadores.
5) Uma central nuclear em Portugal, e em particular no Douro onde já se chegou a ameaçar, arruina completamente a imagem de ambiente de qualidade que pretendemos "vender". Já se calculou o custo disso?
6) Enquanto houver alternativas, mesmo que "mais caras" numa análise simplista, a prudência impõe soluções diferentes. Talvez se consiga adiar por algumas dezenas de anos o recurso à fissão nuclear produzida localmente (nem que seja recorrendo à importação de energia!), até que esteja disponível a tecnologia de fusão nuclear, essa sim limpa e segura.
(publicado no JN de 2010/04/08)
2010/03/26
O PSD e o país real
Portugal não é só elite, excelência, qualidade. Portugal é isso e tudo o resto. O cidadão normal é capaz do melhor e do pior.
Uma das razões que levaram a uma fase infeliz do PSD foi a incapacidade da sua liderança compreender que o país é feito de gente "normal", com as qualidades e defeitos "normais". Ao contrário do que aconteceu historicamente nas autarquias, a nível nacional criou-se um fosso entre as elites e o povo. Uma pequena minoria, com algumas qualidades (intelectuais, culturais, académicas) de facto acima da média, julga ter legitimidade acrescida pelo facto de ser elite. Essa minoria tenta liderar sem possuir experiência prática da vida do cidadão comum, sem partilhar com ele essas qualidades, e sem recolher dele o “feedback” que é também conhecimento valioso; ela não tem paciência para dedicar às questões mais terra-a-terra que a nível local alguns cidadãos interventivos acabam por tratar à sua maneira, com esforço e dedicação, e muitas vezes bem.
Acredito que Passos Coelho tenha percebido isso e que tente agora, sem falsas modéstias mas com consciência de que sozinho ninguém desenvolve o país, congregar esforços num projecto comum. Portugal não é só elite, excelência, qualidade. Portugal é isso e tudo o resto. O cidadão normal é capaz do melhor e do pior: num ambiente saudável, construtivo, colaborativo, ele habitualmente contribui de forma positiva; ao contrário, quando imerso na agressividade, na desonestidade, na inveja, ele ajuda a piorar a situação. Um bom líder tem por isso de saber criar o ambiente propício a que cada pessoa possa dar o melhor de si, trabalhando com as pessoas reais, com os portugueses que somos.
O próprio líder, contudo, não é isento de limitações e imperfeições. Daí que uma postura de sistemática abertura à participação da sociedade civil seja fundamental para garantir transparência, qualidade e fiabilidade. Nesse aspecto, Passos Coelho está no rumo certo.
(publicado no JN de 2010/03/25)
Uma das razões que levaram a uma fase infeliz do PSD foi a incapacidade da sua liderança compreender que o país é feito de gente "normal", com as qualidades e defeitos "normais". Ao contrário do que aconteceu historicamente nas autarquias, a nível nacional criou-se um fosso entre as elites e o povo. Uma pequena minoria, com algumas qualidades (intelectuais, culturais, académicas) de facto acima da média, julga ter legitimidade acrescida pelo facto de ser elite. Essa minoria tenta liderar sem possuir experiência prática da vida do cidadão comum, sem partilhar com ele essas qualidades, e sem recolher dele o “feedback” que é também conhecimento valioso; ela não tem paciência para dedicar às questões mais terra-a-terra que a nível local alguns cidadãos interventivos acabam por tratar à sua maneira, com esforço e dedicação, e muitas vezes bem.
Acredito que Passos Coelho tenha percebido isso e que tente agora, sem falsas modéstias mas com consciência de que sozinho ninguém desenvolve o país, congregar esforços num projecto comum. Portugal não é só elite, excelência, qualidade. Portugal é isso e tudo o resto. O cidadão normal é capaz do melhor e do pior: num ambiente saudável, construtivo, colaborativo, ele habitualmente contribui de forma positiva; ao contrário, quando imerso na agressividade, na desonestidade, na inveja, ele ajuda a piorar a situação. Um bom líder tem por isso de saber criar o ambiente propício a que cada pessoa possa dar o melhor de si, trabalhando com as pessoas reais, com os portugueses que somos.
O próprio líder, contudo, não é isento de limitações e imperfeições. Daí que uma postura de sistemática abertura à participação da sociedade civil seja fundamental para garantir transparência, qualidade e fiabilidade. Nesse aspecto, Passos Coelho está no rumo certo.
(publicado no JN de 2010/03/25)
2010/03/12
Somos os melhores em tudo
O partido com que o cidadão se sente identificado nas eleições legislativas e europeias não é necessariamente o mesmo que defende os seus interesses locais
Em Democracia a participação política dos cidadãos não é exercida só através dos partidos, mas eles são a ferramenta principal. As pessoas com interesses compatíveis entre si agrupam-se em estruturas que os defendem, gerando massa crítica de intervenção. Apresentando-se a eleições ganham a legitimidade do voto e, em caso de maioria, conquistam o direito de implantar as propostas sufragadas. Quem não pertence a um partido opta por reservar para si apenas a escolha final nas eleições; a construção das várias alternativas terá sido delegada ao interior dos partidos. Neste contexto, quem pretende ter uma intervenção política mais activa deve geralmente inscrever-se como militante. Adquire assim o direito de votar para a escolha dos dirigentes, do programa e dos candidatos a deputados ou autarcas.
Acontece que o partido com que o cidadão se sente identificado nas eleições legislativas e europeias não é necessariamente o mesmo que defende os seus interesses locais. Não é razoável exigir que pessoas que comungam de uma mesma linha de pensamento relativamente à política nacional ou europeia (Governo, Assembleia da República, Parlamento Europeu) alcancem consenso quanto à gestão da sua freguesia ou município. Os assuntos tratados nas autarquias locais são em grande parte completamente independentes das opções de relevância mais alargada.
Por isso os partidos, com projecção nacional, não devem impor fidelidade de voto também local. Se são assuntos distintos, os cidadãos precisam de ter sempre a liberdade de escolher quem melhor os representa em cada nível de poder. É muito positivo que os partidos se envolvam intensamente na política local, mas não tenham a presunção de se julgar obrigatoriamente a melhor opção para os militantes que os escolheram por causa da nacional.
(publicado no JN de 2010/03/11)
Em Democracia a participação política dos cidadãos não é exercida só através dos partidos, mas eles são a ferramenta principal. As pessoas com interesses compatíveis entre si agrupam-se em estruturas que os defendem, gerando massa crítica de intervenção. Apresentando-se a eleições ganham a legitimidade do voto e, em caso de maioria, conquistam o direito de implantar as propostas sufragadas. Quem não pertence a um partido opta por reservar para si apenas a escolha final nas eleições; a construção das várias alternativas terá sido delegada ao interior dos partidos. Neste contexto, quem pretende ter uma intervenção política mais activa deve geralmente inscrever-se como militante. Adquire assim o direito de votar para a escolha dos dirigentes, do programa e dos candidatos a deputados ou autarcas.
Acontece que o partido com que o cidadão se sente identificado nas eleições legislativas e europeias não é necessariamente o mesmo que defende os seus interesses locais. Não é razoável exigir que pessoas que comungam de uma mesma linha de pensamento relativamente à política nacional ou europeia (Governo, Assembleia da República, Parlamento Europeu) alcancem consenso quanto à gestão da sua freguesia ou município. Os assuntos tratados nas autarquias locais são em grande parte completamente independentes das opções de relevância mais alargada.
Por isso os partidos, com projecção nacional, não devem impor fidelidade de voto também local. Se são assuntos distintos, os cidadãos precisam de ter sempre a liberdade de escolher quem melhor os representa em cada nível de poder. É muito positivo que os partidos se envolvam intensamente na política local, mas não tenham a presunção de se julgar obrigatoriamente a melhor opção para os militantes que os escolheram por causa da nacional.
(publicado no JN de 2010/03/11)
2010/02/26
Prefiro um Governo de gestão
Se depois das eleições vier um governo competente, não será esse curto período transitório causador de maior mal do que aquele ao qual já não nos escapamos
Uma das últimas teorias para justificar a manutenção, ainda que penosa, do governo de José Sócrates é a que nos tenta assustar com perigos de um governo de gestão. Ai que as eleições não se podem realizar imediatamente, ai que há medidas urgentíssimas que teriam de ser adiadas, ai o que seria da nossa fama nos mercados financeiros internacionais!
Mas afinal onde está o mal? Se agora continuam a ser tomadas medidas erradas, se o orçamento está longe de ser bom, se não se inverteu o descalabro, se insistem nas manobras contabilísticas para esconder dívidas do Estado, o que temos a perder? Pode acontecer que o custo de financiamento externo aumente a pique durante poucos meses mas, se depois das eleições vier um governo competente, não será esse curto período transitório causador de maior mal do que aquele ao qual já não nos escapamos. Pelo contrário, mais vale uma cura dolorosa mas rápida do que um contínuo resvalar para a desgraça.
Acredito que seria possível obter apoio alargado na Assembleia da República, enquanto se esperam eleições, para um governo com funções equivalentes às de um de gestão com um significativo acrescento: a melhoria da Justiça (incluindo simplificação radical de leis e regulamentos). Estando obrigado a concentrar-se neste assunto que é a primeira prioridade para Portugal, e relativamente ao qual o consenso será viável, aposto que um Executivo de programa assim minimalista proporcionará até excelentes resultados.
Nota final: a entrevista de Sousa Tavares a Sócrates fez-me lembrar a de Judite de Sousa a Rui Rio – se não é confrontado (e não foi) com argumentos bem sistematizados e totalmente inquestionáveis, um político profissional como estes acaba por ser “branqueado” aos olhos dos seus apoiantes por um entrevistador que facilitou no trabalho de casa.
(publicado no JN de 2010/02/25)
Uma das últimas teorias para justificar a manutenção, ainda que penosa, do governo de José Sócrates é a que nos tenta assustar com perigos de um governo de gestão. Ai que as eleições não se podem realizar imediatamente, ai que há medidas urgentíssimas que teriam de ser adiadas, ai o que seria da nossa fama nos mercados financeiros internacionais!
Mas afinal onde está o mal? Se agora continuam a ser tomadas medidas erradas, se o orçamento está longe de ser bom, se não se inverteu o descalabro, se insistem nas manobras contabilísticas para esconder dívidas do Estado, o que temos a perder? Pode acontecer que o custo de financiamento externo aumente a pique durante poucos meses mas, se depois das eleições vier um governo competente, não será esse curto período transitório causador de maior mal do que aquele ao qual já não nos escapamos. Pelo contrário, mais vale uma cura dolorosa mas rápida do que um contínuo resvalar para a desgraça.
Acredito que seria possível obter apoio alargado na Assembleia da República, enquanto se esperam eleições, para um governo com funções equivalentes às de um de gestão com um significativo acrescento: a melhoria da Justiça (incluindo simplificação radical de leis e regulamentos). Estando obrigado a concentrar-se neste assunto que é a primeira prioridade para Portugal, e relativamente ao qual o consenso será viável, aposto que um Executivo de programa assim minimalista proporcionará até excelentes resultados.
Nota final: a entrevista de Sousa Tavares a Sócrates fez-me lembrar a de Judite de Sousa a Rui Rio – se não é confrontado (e não foi) com argumentos bem sistematizados e totalmente inquestionáveis, um político profissional como estes acaba por ser “branqueado” aos olhos dos seus apoiantes por um entrevistador que facilitou no trabalho de casa.
(publicado no JN de 2010/02/25)
2010/02/12
Alforrecas
Não há estabilidade que justifique a manutenção de um caminho errado com gente indigna do cargo que ocupa - estabilidade em direcção ao abismo?
Generalizemos, cometendo com isso algumas injustiças: o cidadão comum está mole. Exige das figuras públicas padrões de comportamento a que ele próprio não se sujeita quando menos exposto a olhares alheios. A vivência num ambiente de ética degradada diminui o seu discernimento, a sua capacidade de indignação. As pequenas malandrices enquanto cidadão comum são precisamente a escola que prepara as acções em grande escala dignas de escroques que as circunstâncias da vida tornaram possíveis a alguns.
O que fazer quando as instituições parecem esboroar-se? Actuar com eficácia talvez cruel (pois a avaliação que se faz não é, nem deve ser, do âmbito rigoroso da Justiça), escolhendo rapidamente novos protagonistas. Não há estabilidade que justifique a manutenção de um caminho errado com gente indigna do cargo que ocupa - estabilidade em direcção ao abismo? O argumento de que sem uma alternativa na manga não se deve arriscar uma mudança é um resto do inevitável lastro cultural salazarista, que impele os representantes do povo a agir como se fossem seus “encarregados de educação”. A alternativa só se materializa em face da oportunidade, na medida da necessidade concreta. Uma solução aparecerá quando tiver mesmo de aparecer. Não se adie mais.
A “política de verdade” proposta, mas não praticada, pela actual direcção do PSD é um requisito essencial para qualquer governo nestas circunstâncias. Convém portanto haver memória clara do que nos trouxe a este ponto e das equipas responsáveis por isso, em especial executivo PS e oposição PSD. Quem pertenceu a essas equipas poderá certamente desempenhar papel útil no futuro, mas não haja ilusões de que essas mesmas pessoas possuem capacidade para liderar o esforço de inverter a desgraça em que estamos a cair. É altura de outra gente no PS e no PSD.
(publicado no JN de 2010/02/11)
Generalizemos, cometendo com isso algumas injustiças: o cidadão comum está mole. Exige das figuras públicas padrões de comportamento a que ele próprio não se sujeita quando menos exposto a olhares alheios. A vivência num ambiente de ética degradada diminui o seu discernimento, a sua capacidade de indignação. As pequenas malandrices enquanto cidadão comum são precisamente a escola que prepara as acções em grande escala dignas de escroques que as circunstâncias da vida tornaram possíveis a alguns.
O que fazer quando as instituições parecem esboroar-se? Actuar com eficácia talvez cruel (pois a avaliação que se faz não é, nem deve ser, do âmbito rigoroso da Justiça), escolhendo rapidamente novos protagonistas. Não há estabilidade que justifique a manutenção de um caminho errado com gente indigna do cargo que ocupa - estabilidade em direcção ao abismo? O argumento de que sem uma alternativa na manga não se deve arriscar uma mudança é um resto do inevitável lastro cultural salazarista, que impele os representantes do povo a agir como se fossem seus “encarregados de educação”. A alternativa só se materializa em face da oportunidade, na medida da necessidade concreta. Uma solução aparecerá quando tiver mesmo de aparecer. Não se adie mais.
A “política de verdade” proposta, mas não praticada, pela actual direcção do PSD é um requisito essencial para qualquer governo nestas circunstâncias. Convém portanto haver memória clara do que nos trouxe a este ponto e das equipas responsáveis por isso, em especial executivo PS e oposição PSD. Quem pertenceu a essas equipas poderá certamente desempenhar papel útil no futuro, mas não haja ilusões de que essas mesmas pessoas possuem capacidade para liderar o esforço de inverter a desgraça em que estamos a cair. É altura de outra gente no PS e no PSD.
(publicado no JN de 2010/02/11)
2010/01/29
O próximo Primeiro-Ministro
Quero que aproveite as competências dispersas pela sociedade civil para complementar ou corrigir o trabalho da sua própria equipa
As sociedades não mudam à velocidade dos indivíduos, têm a inércia de um petroleiro. Por isso os partidos tradicionais vão ser uma ferramenta indispensável para a reabilitação do país, sendo o PSD a base de uma alternativa ao actual desgoverno. O que é que eu quero de um novo líder do PSD e futuro primeiro-ministro?
Quero eleger alguém que me dê voz, que me represente de forma estável; não preciso de quem me explique depois o que é bom para mim. Quero que cative novos militantes e eleitores, que crie um ambiente propício à colaboração entre eles e os militantes mais antigos para produção de Política.
Quero que perceba que é muito limitada a capacidade do Governo, só por si, mudar o país; que o seu papel é o de potenciar a acção da iniciativa privada. Quero que aproveite as vastas competências dispersas pela sociedade civil, sabendo ouvi-la, para complementar ou corrigir o trabalho da sua própria equipa. Quero que diminua o âmbito da intervenção do Estado e os impostos que me suga, focando-o nas suas funções de regulador, de promotor da coesão social, de garante do cumprimento das regras da vida em sociedade. Preciso portanto de uma Justiça a funcionar com base em leis e regulamentos simples que não tratem o cidadão como irresponsável ou bandido em potencial.
Quero que se apresente ao país com uma proposta virada para o futuro, que suscite e reforce a ambição dos portugueses, que ajude a transformar as capacidades em progresso. Não me interessa um programa milagroso de medidas avulsas destinado a ser aplicado por um líder iluminado; prefiro um conjunto de opções estruturais enquadradas por sólidos princípios orientadores que se vão transformando em soluções concretas de um Governo que faça pouco, mas faça bem. Pensando bem, a escolha é simples. É de facto preciso mudar.
(publicado no JN de 2010/01/28)
As sociedades não mudam à velocidade dos indivíduos, têm a inércia de um petroleiro. Por isso os partidos tradicionais vão ser uma ferramenta indispensável para a reabilitação do país, sendo o PSD a base de uma alternativa ao actual desgoverno. O que é que eu quero de um novo líder do PSD e futuro primeiro-ministro?
Quero eleger alguém que me dê voz, que me represente de forma estável; não preciso de quem me explique depois o que é bom para mim. Quero que cative novos militantes e eleitores, que crie um ambiente propício à colaboração entre eles e os militantes mais antigos para produção de Política.
Quero que perceba que é muito limitada a capacidade do Governo, só por si, mudar o país; que o seu papel é o de potenciar a acção da iniciativa privada. Quero que aproveite as vastas competências dispersas pela sociedade civil, sabendo ouvi-la, para complementar ou corrigir o trabalho da sua própria equipa. Quero que diminua o âmbito da intervenção do Estado e os impostos que me suga, focando-o nas suas funções de regulador, de promotor da coesão social, de garante do cumprimento das regras da vida em sociedade. Preciso portanto de uma Justiça a funcionar com base em leis e regulamentos simples que não tratem o cidadão como irresponsável ou bandido em potencial.
Quero que se apresente ao país com uma proposta virada para o futuro, que suscite e reforce a ambição dos portugueses, que ajude a transformar as capacidades em progresso. Não me interessa um programa milagroso de medidas avulsas destinado a ser aplicado por um líder iluminado; prefiro um conjunto de opções estruturais enquadradas por sólidos princípios orientadores que se vão transformando em soluções concretas de um Governo que faça pouco, mas faça bem. Pensando bem, a escolha é simples. É de facto preciso mudar.
(publicado no JN de 2010/01/28)
2010/01/15
X
A medida mais urgente para a Economia é afinal na Justiça. E para a Educação também é na Justiça. E para o Ambiente também é na Justiça.
Governo e Assembleia da República continuam sem perceber que não haverá futuro num país em que são sistematicamente desrespeitadas as regras de funcionamento da sociedade. Os cidadãos não são defendidos com um mínimo de eficácia a nível dos tribunais e da Administração Pública. Assim se destroem relações sociais, economia e esperança.
A solução está ao alcance mas não é aplicada – a Justiça, em sentido lato. Simplifiquem-se drasticamente leis e regulamentos supérfluos, dificilmente entendidos e cujo cumprimento generalizado é impossível de garantir. Passo a passo, é essencial uma limpeza completa, eliminando motivos de recurso aos tribunais ou evitando interacções penosas com serviços do Estado. Estabeleçam-se prioridades de actuação. O que é mais urgente para apoio ao desenvolvimento? Incentivos fiscais ao investimento estrangeiro ou processos judiciais resolvidos em tempo útil? O que é mais importante para a reabilitação dos centros urbanos? Renovação do edificado com capitais estatais, ou uma lei das rendas com mecanismos racionais em que senhorios e inquilinos se entendam sem intermediação dos serviços públicos? Por isso a medida mais urgente para a Economia é afinal na Justiça. E para a Educação também é na Justiça. E para o Ambiente também é na Justiça.
A minha gata X, que morreu faz hoje um ano, percebia este raciocínio melhor do que Sócrates: se desconfiava de perigo largava o que estava a fazer, juntava-se à irmã gémea e vinham as duas a correr defender-me. Sejamos realistas: só mudando pessoas e, principalmente, processos de governar é que ultrapassamos esta degradação do país. É por isso que a escolha de um novo primeiro-ministro, na prática, está já em curso. Não se procure um salvador, mas alguém que congregue competências para tratar apenas do que é realmente prioritário.
(publicado no JN de 2010/01/14)
Governo e Assembleia da República continuam sem perceber que não haverá futuro num país em que são sistematicamente desrespeitadas as regras de funcionamento da sociedade. Os cidadãos não são defendidos com um mínimo de eficácia a nível dos tribunais e da Administração Pública. Assim se destroem relações sociais, economia e esperança.
A solução está ao alcance mas não é aplicada – a Justiça, em sentido lato. Simplifiquem-se drasticamente leis e regulamentos supérfluos, dificilmente entendidos e cujo cumprimento generalizado é impossível de garantir. Passo a passo, é essencial uma limpeza completa, eliminando motivos de recurso aos tribunais ou evitando interacções penosas com serviços do Estado. Estabeleçam-se prioridades de actuação. O que é mais urgente para apoio ao desenvolvimento? Incentivos fiscais ao investimento estrangeiro ou processos judiciais resolvidos em tempo útil? O que é mais importante para a reabilitação dos centros urbanos? Renovação do edificado com capitais estatais, ou uma lei das rendas com mecanismos racionais em que senhorios e inquilinos se entendam sem intermediação dos serviços públicos? Por isso a medida mais urgente para a Economia é afinal na Justiça. E para a Educação também é na Justiça. E para o Ambiente também é na Justiça.
A minha gata X, que morreu faz hoje um ano, percebia este raciocínio melhor do que Sócrates: se desconfiava de perigo largava o que estava a fazer, juntava-se à irmã gémea e vinham as duas a correr defender-me. Sejamos realistas: só mudando pessoas e, principalmente, processos de governar é que ultrapassamos esta degradação do país. É por isso que a escolha de um novo primeiro-ministro, na prática, está já em curso. Não se procure um salvador, mas alguém que congregue competências para tratar apenas do que é realmente prioritário.
(publicado no JN de 2010/01/14)
2009/12/31
O quarto individual
Na maior parte dos casos o quarto individual vai adicionar à doença a solidão e uma assistência menos eficaz
Li na passada Terça-feira, aqui no JN, que no projectado Centro Hospitalar de Gaia/Espinho “predominará o quarto individual”. Para alguns doentes isso será preferível, especialmente se tiverem a sorte de possuir familiares com disponibilidade para proporcionar companhia pemanente. Mas na maior parte dos casos o quarto individual vai adicionar à doença a solidão e uma assistência menos eficaz.
Escrevo com algum conhecimento de causa: já estive hospitalizado por alguns dias várias vezes (felizmente nenhuma delas por razões graves) em hospitais públicos e privados; trabalhei durante ano e meio no Hospital de Gaia. Façam-se algumas contas. Que percentagem dos doentes terá, na prática, visitas ou companhia? Que porção do tempo estarão sozinhos no seu quarto privativo? Antevejo o anúncio governamental: “inovação e progresso - cada doente com a sua própria televisão”! Não me atrevo a imaginar quantos minutos estará um profissional de saúde no quarto, nem as conversas que o internado terá com as paredes, mas adivinho os impropérios na cabeça de cada pessoa arrumada num cubículo do moderno complexo hospitalar quando receber de mãos diligentes um fantástico Magalhães com ligação de banda larga para actualizar a sua página do Facebook.
Quem é que projecta estes espaços e toma estas decisões? Não lhes exigem que vivam num hospital antes de desenhar um novo? O Estado vai mais uma vez atirar com dinheiro para cima dos problemas, neste caso possivelmente cheio de boas intenções que não escondem a habitual incompetência. Não se despreze o conhecimento humano acumulado: o “hospital ideal” nunca foi o “hospital do quarto individual”. As enfermarias, quando bem organizadas e de dimensão adequada, são os ambientes que mais favorecem a recuperação. O sofrimento ultrapassa-se melhor quando se aprende a partilhá-lo e a confortar quem está pior do que nós, quando se aceita que ele é inevitável. Faço votos para que em 2010 se compreenda que, também na doença, estamos melhor juntos do que cada um no seu canto.
(publicado no JN de 2009/12/31)
Li na passada Terça-feira, aqui no JN, que no projectado Centro Hospitalar de Gaia/Espinho “predominará o quarto individual”. Para alguns doentes isso será preferível, especialmente se tiverem a sorte de possuir familiares com disponibilidade para proporcionar companhia pemanente. Mas na maior parte dos casos o quarto individual vai adicionar à doença a solidão e uma assistência menos eficaz.
Escrevo com algum conhecimento de causa: já estive hospitalizado por alguns dias várias vezes (felizmente nenhuma delas por razões graves) em hospitais públicos e privados; trabalhei durante ano e meio no Hospital de Gaia. Façam-se algumas contas. Que percentagem dos doentes terá, na prática, visitas ou companhia? Que porção do tempo estarão sozinhos no seu quarto privativo? Antevejo o anúncio governamental: “inovação e progresso - cada doente com a sua própria televisão”! Não me atrevo a imaginar quantos minutos estará um profissional de saúde no quarto, nem as conversas que o internado terá com as paredes, mas adivinho os impropérios na cabeça de cada pessoa arrumada num cubículo do moderno complexo hospitalar quando receber de mãos diligentes um fantástico Magalhães com ligação de banda larga para actualizar a sua página do Facebook.
Quem é que projecta estes espaços e toma estas decisões? Não lhes exigem que vivam num hospital antes de desenhar um novo? O Estado vai mais uma vez atirar com dinheiro para cima dos problemas, neste caso possivelmente cheio de boas intenções que não escondem a habitual incompetência. Não se despreze o conhecimento humano acumulado: o “hospital ideal” nunca foi o “hospital do quarto individual”. As enfermarias, quando bem organizadas e de dimensão adequada, são os ambientes que mais favorecem a recuperação. O sofrimento ultrapassa-se melhor quando se aprende a partilhá-lo e a confortar quem está pior do que nós, quando se aceita que ele é inevitável. Faço votos para que em 2010 se compreenda que, também na doença, estamos melhor juntos do que cada um no seu canto.
(publicado no JN de 2009/12/31)
2009/12/18
Empresários de aviário
A reabilitação urbana é para quem está disposto a apostar o seu dinheiro antes dos outros - não por altruísmo, mas por apurado sentido de negócio
A reabilitação urbana é uma das áreas onde mais se evidencia o divórcio entre os investidores e o mundo real em que é suposto actuarem. Constroem um modelo teórico e tentam que a realidade a ele se adapte.
Um dos mitos é: “um bom negócio encontra sempre investidores”. Se assim fosse o centro das cidades tinha hoje outra vida! Em grande parte das situações é impossível provar que determinada oportunidade é um bom negócio, pois ele é criado à medida que vai sendo implantado. Faz sentido, por exemplo, preparar um projecto de arquitectura e obter o respectivo licenciamento antes de adquirido o imóvel ao qual se destina? Quem está disposto a arriscar esperar vários meses pela conclusão do processo sem ter assegurada a compra, podendo entretanto ver a oportunidade fugir? E, sem um projecto garantido, com que base se faz um plano de negócios convencional? Pior: se ainda não há propriamente um mercado a funcionar, que confiança atribuir a esse plano?
Os negócios têm muito de conhecimento não quantificável mas válido. Quando se verifica ser possível fazer contas detalhadas, é viável o recurso a crédito bancário ou a parcerias numa perspectiva eminentemente financeira. Mas e os outros casos? O “investidor” português típico é apenas gestor de património alheio: funcionário que tem de prestar contas aos accionistas da empresa que o contrata. Não pode justificar-se com um "investi aqui o vosso dinheiro porque me cheirou a bom negócio" e por isso defende-se exigindo estudos ou pareceres completamente irrealistas. Acaba por não aplicar o capital na reabilitação urbana nem nunca encontrar "bons projectos".
Falta aparecerem os verdadeiros empresários. A reabilitação urbana é para quem conhece o meio, para quem consegue preparar uma oferta adequada à procura que sabe existir, para quem antevê o futuro de cada cidade e sabe contribuir para o concretizar, para quem gosta dela e está disposto a apostar o seu tempo e o seu dinheiro antes dos outros - não por altruísmo, mas por apurado sentido de negócio.
(publicado no JN de 2009/12/17)
A reabilitação urbana é uma das áreas onde mais se evidencia o divórcio entre os investidores e o mundo real em que é suposto actuarem. Constroem um modelo teórico e tentam que a realidade a ele se adapte.
Um dos mitos é: “um bom negócio encontra sempre investidores”. Se assim fosse o centro das cidades tinha hoje outra vida! Em grande parte das situações é impossível provar que determinada oportunidade é um bom negócio, pois ele é criado à medida que vai sendo implantado. Faz sentido, por exemplo, preparar um projecto de arquitectura e obter o respectivo licenciamento antes de adquirido o imóvel ao qual se destina? Quem está disposto a arriscar esperar vários meses pela conclusão do processo sem ter assegurada a compra, podendo entretanto ver a oportunidade fugir? E, sem um projecto garantido, com que base se faz um plano de negócios convencional? Pior: se ainda não há propriamente um mercado a funcionar, que confiança atribuir a esse plano?
Os negócios têm muito de conhecimento não quantificável mas válido. Quando se verifica ser possível fazer contas detalhadas, é viável o recurso a crédito bancário ou a parcerias numa perspectiva eminentemente financeira. Mas e os outros casos? O “investidor” português típico é apenas gestor de património alheio: funcionário que tem de prestar contas aos accionistas da empresa que o contrata. Não pode justificar-se com um "investi aqui o vosso dinheiro porque me cheirou a bom negócio" e por isso defende-se exigindo estudos ou pareceres completamente irrealistas. Acaba por não aplicar o capital na reabilitação urbana nem nunca encontrar "bons projectos".
Falta aparecerem os verdadeiros empresários. A reabilitação urbana é para quem conhece o meio, para quem consegue preparar uma oferta adequada à procura que sabe existir, para quem antevê o futuro de cada cidade e sabe contribuir para o concretizar, para quem gosta dela e está disposto a apostar o seu tempo e o seu dinheiro antes dos outros - não por altruísmo, mas por apurado sentido de negócio.
(publicado no JN de 2009/12/17)
2009/12/04
O Tratado de Lisboa, agora em filme
Ver Cinema é também falar sobre ele, ou usá-lo como pretexto para conversar sobre outros assuntos
O Porto tem uma riqueza ímpar a nível de Cinema, que desperdiça de modo escandaloso. A Casa das Artes há anos sem projecções, o Cineclube do Porto moribundo apesar do património com grande relevância histórica e cultural, o fantasma da Casa do Cinema que a autarquia quis à força oferecer a Manoel de Oliveira. Isto apesar do sucesso do Fantasporto, da vigorosa actividade a nível das universidades e dos clubes informais, de Serralves, da Casa da Animação, da RTP no Monte da Virgem, ...
A nova Ministra da Cultura divulgou há dias a intenção de reactivar a Casa das Artes, realizando as obras necessárias. Há em simultâneo alguma agitação em volta do Cineclube do Porto, estudando-se potenciais sinergias. Grande parte das dificuldades provém apenas de mal-entendidos, desconfianças e muita inércia. Que não se ruminem os momentos infelizes do passado mais recente, mas que se divulguem desde já ideias neste campo como contributo para tornar a cidade mais atractiva.
Só passar filmes não basta – para isso temos DVD e os LCD em casa, com ou sem pipocas. Ver Cinema é também falar sobre ele, ou usá-lo como pretexto para conversar sobre outros assuntos – na velha tradição das tertúlias adaptadas aos dias de hoje. Os exemplos que funcionam bem noutros locais merecem ser copiados. Um cineclube com futuro tem de viver no âmbito de parcerias que complementem a sua oferta. Sejam escolas, bares, galerias de arte, partidos políticos, autarquias, outros cineclubes, salas de cinema comercial. Há mercado ligando documentário e jornalismo, ou arquitectura e filmes sobre cidades, ou política e a vida na Europa transposta para o ecrã.
A propósito, aqui vai já uma sugestão para o tema de um ciclo: o Tratado de Lisboa. É que não faltam sequer argumentistas locais para novas produções: aproveite-se a comédia proposta há dias por Paulo Rangel, defendendo como positivas as “dificuldades de interpretação” do tratado pois assim supostamente cria-se “um espaço de criatividade” que “dá o palco à política”. Bom filme!
(publicado no JN de 2009/12/03)
O Porto tem uma riqueza ímpar a nível de Cinema, que desperdiça de modo escandaloso. A Casa das Artes há anos sem projecções, o Cineclube do Porto moribundo apesar do património com grande relevância histórica e cultural, o fantasma da Casa do Cinema que a autarquia quis à força oferecer a Manoel de Oliveira. Isto apesar do sucesso do Fantasporto, da vigorosa actividade a nível das universidades e dos clubes informais, de Serralves, da Casa da Animação, da RTP no Monte da Virgem, ...
A nova Ministra da Cultura divulgou há dias a intenção de reactivar a Casa das Artes, realizando as obras necessárias. Há em simultâneo alguma agitação em volta do Cineclube do Porto, estudando-se potenciais sinergias. Grande parte das dificuldades provém apenas de mal-entendidos, desconfianças e muita inércia. Que não se ruminem os momentos infelizes do passado mais recente, mas que se divulguem desde já ideias neste campo como contributo para tornar a cidade mais atractiva.
Só passar filmes não basta – para isso temos DVD e os LCD em casa, com ou sem pipocas. Ver Cinema é também falar sobre ele, ou usá-lo como pretexto para conversar sobre outros assuntos – na velha tradição das tertúlias adaptadas aos dias de hoje. Os exemplos que funcionam bem noutros locais merecem ser copiados. Um cineclube com futuro tem de viver no âmbito de parcerias que complementem a sua oferta. Sejam escolas, bares, galerias de arte, partidos políticos, autarquias, outros cineclubes, salas de cinema comercial. Há mercado ligando documentário e jornalismo, ou arquitectura e filmes sobre cidades, ou política e a vida na Europa transposta para o ecrã.
A propósito, aqui vai já uma sugestão para o tema de um ciclo: o Tratado de Lisboa. É que não faltam sequer argumentistas locais para novas produções: aproveite-se a comédia proposta há dias por Paulo Rangel, defendendo como positivas as “dificuldades de interpretação” do tratado pois assim supostamente cria-se “um espaço de criatividade” que “dá o palco à política”. Bom filme!
(publicado no JN de 2009/12/03)
2009/11/20
Autarquias gay
Construímos ilusões disfarçadas de ambições quando, por preguiça ou inconsciência, descuramos o detalhe das nossas grandes estratégias
Há no Norte, claramente, um problema interno de comunicação. Manifesta-se na raridade da colaboração intergeracional para criação de negócios, na agressividade entre tribos políticas, no difícil diálogo sobre como nos devemos organizar no combate ao centralismo e na gestão do território. Construímos ilusões disfarçadas de ambições quando, por preguiça ou inconsciência, descuramos o detalhe das nossas grandes estratégias.
Afirmar como verdade absoluta que o único caminho para desenvolver do Norte é a Regionalização, sem que haja uma proposta concreta de limites, competências, fontes de financiamento e modo de funcionamento, é fugir ao problema porque cada um tem o seu modelo preferido. Fosse fácil alcançar um consenso e haveria já, preto no branco, uma proposta com nível adequado de detalhe.
Mas a Regionalização só por si não é a solução; quando muito proporcionará uma optimização dos processos de decisão, acompanhada por uma distribuição mais racional dos recursos nacionais e europeus. É que continua a faltar o essencial: ganhar dimensão, "de baixo para cima", na gestão do território. Os resultados da acção dos autarcas, mesmo quando competente, são limitados por uma estrutura fragmentada disfuncional. Veja-se este exemplo no Porto: freguesia de S. Nicolau - 2.568 eleitores, área de 0,21 km²; freguesia de Paranhos - 42.302 eleitores, área de 6,67 km². O mesmo modelo para realidades de escala tão diferente? Falta fundir, ao menos, autarquias locais sem massa crítica. Se aparecerem “autarquias gay” talvez este tipo de uniões conquiste mais atenção...
Quando vir que a fusão de freguesias e municípios (indispensável com ou sem Regionalização, e mais importante que esta) tem apoio generalizado, acreditarei que a população do Norte talvez possa beneficiar com o estabelecimento de uma Região nascida por crescimento orgânico, referendada concelho a concelho. Quando verificar que se evitam redundâncias no associativismo e lutamos unidos pelas causas que afirmamos comuns, ficarei convencido de que a merecemos.
(publicado no JN de 2009/11/19)
Há no Norte, claramente, um problema interno de comunicação. Manifesta-se na raridade da colaboração intergeracional para criação de negócios, na agressividade entre tribos políticas, no difícil diálogo sobre como nos devemos organizar no combate ao centralismo e na gestão do território. Construímos ilusões disfarçadas de ambições quando, por preguiça ou inconsciência, descuramos o detalhe das nossas grandes estratégias.
Afirmar como verdade absoluta que o único caminho para desenvolver do Norte é a Regionalização, sem que haja uma proposta concreta de limites, competências, fontes de financiamento e modo de funcionamento, é fugir ao problema porque cada um tem o seu modelo preferido. Fosse fácil alcançar um consenso e haveria já, preto no branco, uma proposta com nível adequado de detalhe.
Mas a Regionalização só por si não é a solução; quando muito proporcionará uma optimização dos processos de decisão, acompanhada por uma distribuição mais racional dos recursos nacionais e europeus. É que continua a faltar o essencial: ganhar dimensão, "de baixo para cima", na gestão do território. Os resultados da acção dos autarcas, mesmo quando competente, são limitados por uma estrutura fragmentada disfuncional. Veja-se este exemplo no Porto: freguesia de S. Nicolau - 2.568 eleitores, área de 0,21 km²; freguesia de Paranhos - 42.302 eleitores, área de 6,67 km². O mesmo modelo para realidades de escala tão diferente? Falta fundir, ao menos, autarquias locais sem massa crítica. Se aparecerem “autarquias gay” talvez este tipo de uniões conquiste mais atenção...
Quando vir que a fusão de freguesias e municípios (indispensável com ou sem Regionalização, e mais importante que esta) tem apoio generalizado, acreditarei que a população do Norte talvez possa beneficiar com o estabelecimento de uma Região nascida por crescimento orgânico, referendada concelho a concelho. Quando verificar que se evitam redundâncias no associativismo e lutamos unidos pelas causas que afirmamos comuns, ficarei convencido de que a merecemos.
(publicado no JN de 2009/11/19)
2009/11/06
Coisas Óbvias
Viver em habitação social não pode ser considerado “normal”
- As Assembleias Municipais são mal aproveitadas como espaço de ligação de eleitos a eleitores. As sessões, anunciadas de forma medíocre, decorrem geralmente em locais com reduzida lotação. Por vezes, como acontece no Porto, é obrigatório um aborrecido processo de inscrição prévia. Se lamentamos o desinteresse da população quanto à Política e à gestão do património comum, proporcionemos ao menos condições para que haja transparência no debate e adequada prestação de contas. Hoje em dia é inadmissível a ausência de um arquivo das gravações áudio e vídeo das sessões das Assembleias Municipais nos sítios na Internet de cada concelho. É perfeitamente viável, a custos insignificantes, fazer até a transmissão em directo; nem sequer é inédito em Portugal. A audiência será assim incomparavelmente maior. Desconfio é que alguns não gostarão de ver exposta a forma como exercem o seu cargo.
- Quanto mais analiso o problema de bairros como o do Aleixo e converso com as pessoas directamente envolvidas, mais me convenço de que o problema principal não é a droga nem a pobreza: é a dependência do Estado! Quem se viciou (o termo é mesmo este) nos apoios públicos raramente percebe que entrou numa espiral de degradação pessoal e social. Viver em habitação social (subsidiada, portanto) não pode ser considerado “normal”, mas somente uma situação transitória para ultrapassar dificuldades financeiras pontuais de cidadãos activos, ou uma solução de recurso para quem, tendo idade avançada ou alguma incapacidade grave, não encontra outra alternativa. “Habitação social” não implica segregar pessoas em bairros específicos. Em vez disso, pode a autarquia arrendar ela própria habitações no mercado aberto, que depois subarrendaria por valores subsidiados a quem não consiga dispensar a ajuda. É mais rápido do que construir, muito mais flexível, ocupam-se fogos agora devolutos no centro das cidades.
Estas não são ideias novas, evidentemente. Presumo que sejam óbvias e quiçá consensuais. Por que não são aplicadas?
(publicado no JN de 2009/11/05)
- As Assembleias Municipais são mal aproveitadas como espaço de ligação de eleitos a eleitores. As sessões, anunciadas de forma medíocre, decorrem geralmente em locais com reduzida lotação. Por vezes, como acontece no Porto, é obrigatório um aborrecido processo de inscrição prévia. Se lamentamos o desinteresse da população quanto à Política e à gestão do património comum, proporcionemos ao menos condições para que haja transparência no debate e adequada prestação de contas. Hoje em dia é inadmissível a ausência de um arquivo das gravações áudio e vídeo das sessões das Assembleias Municipais nos sítios na Internet de cada concelho. É perfeitamente viável, a custos insignificantes, fazer até a transmissão em directo; nem sequer é inédito em Portugal. A audiência será assim incomparavelmente maior. Desconfio é que alguns não gostarão de ver exposta a forma como exercem o seu cargo.
- Quanto mais analiso o problema de bairros como o do Aleixo e converso com as pessoas directamente envolvidas, mais me convenço de que o problema principal não é a droga nem a pobreza: é a dependência do Estado! Quem se viciou (o termo é mesmo este) nos apoios públicos raramente percebe que entrou numa espiral de degradação pessoal e social. Viver em habitação social (subsidiada, portanto) não pode ser considerado “normal”, mas somente uma situação transitória para ultrapassar dificuldades financeiras pontuais de cidadãos activos, ou uma solução de recurso para quem, tendo idade avançada ou alguma incapacidade grave, não encontra outra alternativa. “Habitação social” não implica segregar pessoas em bairros específicos. Em vez disso, pode a autarquia arrendar ela própria habitações no mercado aberto, que depois subarrendaria por valores subsidiados a quem não consiga dispensar a ajuda. É mais rápido do que construir, muito mais flexível, ocupam-se fogos agora devolutos no centro das cidades.
Estas não são ideias novas, evidentemente. Presumo que sejam óbvias e quiçá consensuais. Por que não são aplicadas?
(publicado no JN de 2009/11/05)
2009/10/23
Obesidade associativa
Vale a pena fazer “lobby” transparente e construtivo
Gostava que um dia me explicassem devagarinho qual o benefício para Portugal, no contexto em que vivemos, da existência de associações de empresários como a AEP, a AIP, a CIP, a ANJE, a das PMEs, etc., etc. Quais os fins que pretendem realmente atingir? Vejo 3 áreas onde, no imediato, vale a pena fazer “lobby” transparente e construtivo.
1) Reforma do sistema de Justiça: a primeira das prioridades. Sem estarem a funcionar saudavelmente as regras de interacção entre os cidadãos e destes com o Estado, é impossível aplicar com eficácia outras reformas. Um exemplo: num país saudável as vítimas dos calotes da Administração Pública poderiam obter reparação em tempo útil.
2) Simplificação drástica de leis e de regulamentos técnicos. A menos que estejam em causa valores fundamentais como a segurança de pessoas e bens, ou o respeito pela liberdade e pela concorrência leal, as normas recomendariam certificação opcional em vez de imporem requisitos obrigatórios. Isto removeria, só por si, grande carga dos tribunais, do Estado e das autarquias locais, poupando à iniciativa privada recursos preciosos para o fomento da economia. A corrupção deixaria de ter tantos pretextos para se instalar.
3) Reorganização territorial com aplicação equilibrada do investimento público. Se insistirmos na actual manta de retalhos administrada por uma multidão de funcionários mal chefiados, é impossível atingirmos uma produtividade que não nos envergonhe. Continuaremos a sofrer o resultado do centralismo irracional com que pactuamos há décadas, sem participação cívica significativa.
Melhorias nestes pontos seriam bênçãos para empresários que se prezem. Se a fusão da AEP e da AIP ajudar a manter vivas estas prioridades até que haja mudanças reais em Portugal, então vale a pena. Mas não faz sentido tratar de outros assuntos agora. Basta um pequeno número de especialistas motivados para este trabalho, dispensando-se as pesadas estruturas brutalmente endividadas e parasitas de apoios públicos. Fundam-se, mas emagreçam de forma radical!
(publicado no JN de 2009/10/22)
Gostava que um dia me explicassem devagarinho qual o benefício para Portugal, no contexto em que vivemos, da existência de associações de empresários como a AEP, a AIP, a CIP, a ANJE, a das PMEs, etc., etc. Quais os fins que pretendem realmente atingir? Vejo 3 áreas onde, no imediato, vale a pena fazer “lobby” transparente e construtivo.
1) Reforma do sistema de Justiça: a primeira das prioridades. Sem estarem a funcionar saudavelmente as regras de interacção entre os cidadãos e destes com o Estado, é impossível aplicar com eficácia outras reformas. Um exemplo: num país saudável as vítimas dos calotes da Administração Pública poderiam obter reparação em tempo útil.
2) Simplificação drástica de leis e de regulamentos técnicos. A menos que estejam em causa valores fundamentais como a segurança de pessoas e bens, ou o respeito pela liberdade e pela concorrência leal, as normas recomendariam certificação opcional em vez de imporem requisitos obrigatórios. Isto removeria, só por si, grande carga dos tribunais, do Estado e das autarquias locais, poupando à iniciativa privada recursos preciosos para o fomento da economia. A corrupção deixaria de ter tantos pretextos para se instalar.
3) Reorganização territorial com aplicação equilibrada do investimento público. Se insistirmos na actual manta de retalhos administrada por uma multidão de funcionários mal chefiados, é impossível atingirmos uma produtividade que não nos envergonhe. Continuaremos a sofrer o resultado do centralismo irracional com que pactuamos há décadas, sem participação cívica significativa.
Melhorias nestes pontos seriam bênçãos para empresários que se prezem. Se a fusão da AEP e da AIP ajudar a manter vivas estas prioridades até que haja mudanças reais em Portugal, então vale a pena. Mas não faz sentido tratar de outros assuntos agora. Basta um pequeno número de especialistas motivados para este trabalho, dispensando-se as pesadas estruturas brutalmente endividadas e parasitas de apoios públicos. Fundam-se, mas emagreçam de forma radical!
(publicado no JN de 2009/10/22)
2009/10/09
Rui, mas o Sá
A cidade não deve, repetindo o erro, empurrar a sua esperança para o próximo presidente da Câmara
O Porto é um falso mistério. A crise tem razões e culpados: decisores portuenses com grandes qualidades pessoais mas, enquanto no poder, incapazes de planear o futuro sem a muleta do Estado; empresários cuja medida de sucesso é o quão baixo conseguem pagar em vez do valor que acrescentam; uma geração avarenta na gestão dos bens e medrosa nas relações sociais. Fechámo-nos sobre nós próprios, pensámos cada vez mais pequenino. E desgraçámo-nos.
A cidade não deve, repetindo o erro, empurrar a sua esperança para o próximo presidente da Câmara. Mas a autarquia, mesmo com meios limitados, pode tratar do ordenamento do território em coordenação com os concelhos vizinhos (com os quais deveria preparar a fusão), administrar o seu património imobiliário e cultural, reunir esforços privados em actividades que beneficiem o Porto.
Rui Rio, em quem votei no primeiro mandato, teve oito anos para perceber isto. Só em parte o conseguiu. Com uma acção por vezes meritória, estragou-a ao deixar de assimilar os sinais negativos que resultavam das suas falhas, o que o impediu de as corrigir. O corte sob fraco pretexto do magro subsídio aos cantoneiros, violando o compromisso da Câmara, foi a gota de água: assim não serve. Ao esconder o contrato do Aleixo e outros documentos supostamente públicos, lá se foi a transparência...
Elisa Ferreira era uma esperança, mas manteve um discurso agressivo que divide a cidade entre pró-Rio e contra-Rio. Não é por aí. Faltou-lhe também uma “política de verdade” que a demarcasse do PS anterior. O seu trabalho de federação das elites tem valor e deve, em qualquer caso, ser aproveitado.
Vou repetir o voto em Rui Sá, mesmo não concordando com todas as suas propostas - trabalhador, disponível para procurar soluções sensatas com outros partidos, o menos demagógico dos candidatos, o que melhor conhece o Porto. Em resumo, é tempo de mudar para alguém que perceba que esta citação é humorística: “There’s really no point in listening to other people. They’re either going to be agreeing with you or saying stupid stuff” – “Dilbert”, Scott Adams.
(publicado no JN de 2009/10/08)
O Porto é um falso mistério. A crise tem razões e culpados: decisores portuenses com grandes qualidades pessoais mas, enquanto no poder, incapazes de planear o futuro sem a muleta do Estado; empresários cuja medida de sucesso é o quão baixo conseguem pagar em vez do valor que acrescentam; uma geração avarenta na gestão dos bens e medrosa nas relações sociais. Fechámo-nos sobre nós próprios, pensámos cada vez mais pequenino. E desgraçámo-nos.
A cidade não deve, repetindo o erro, empurrar a sua esperança para o próximo presidente da Câmara. Mas a autarquia, mesmo com meios limitados, pode tratar do ordenamento do território em coordenação com os concelhos vizinhos (com os quais deveria preparar a fusão), administrar o seu património imobiliário e cultural, reunir esforços privados em actividades que beneficiem o Porto.
Rui Rio, em quem votei no primeiro mandato, teve oito anos para perceber isto. Só em parte o conseguiu. Com uma acção por vezes meritória, estragou-a ao deixar de assimilar os sinais negativos que resultavam das suas falhas, o que o impediu de as corrigir. O corte sob fraco pretexto do magro subsídio aos cantoneiros, violando o compromisso da Câmara, foi a gota de água: assim não serve. Ao esconder o contrato do Aleixo e outros documentos supostamente públicos, lá se foi a transparência...
Elisa Ferreira era uma esperança, mas manteve um discurso agressivo que divide a cidade entre pró-Rio e contra-Rio. Não é por aí. Faltou-lhe também uma “política de verdade” que a demarcasse do PS anterior. O seu trabalho de federação das elites tem valor e deve, em qualquer caso, ser aproveitado.
Vou repetir o voto em Rui Sá, mesmo não concordando com todas as suas propostas - trabalhador, disponível para procurar soluções sensatas com outros partidos, o menos demagógico dos candidatos, o que melhor conhece o Porto. Em resumo, é tempo de mudar para alguém que perceba que esta citação é humorística: “There’s really no point in listening to other people. They’re either going to be agreeing with you or saying stupid stuff” – “Dilbert”, Scott Adams.
(publicado no JN de 2009/10/08)
2009/09/25
Abandonar a União Europeia
Embriagados por aeroportos e TGVs, até nos esquecemos da Política Agrícola Comum
Atacou-me outra vez. Li a notícia de que nos vão proibir de comprar lâmpadas de incandescência e voltou a vontade de abandonar a União Europeia. Estabelecia-se um acordo qualquer para manter o euro, para ter livre circulação de pessoas e mercadorias um pouco ao estilo da Suíça, mas desistíamos deste desvario sistemático. Se não o país inteiro, ao menos a Região Norte. Proibir, novamente! Não é incentivar, recomendar, certificar, promover alternativas (neste caso nem sequer completamente satisfatórias). Proibir.
Pior do que a Gripe A é a febre de querer implantar à força bom-senso no cidadão, criança incapaz de tomar conta de si. Há sempre em Bruxelas quem se ofereça para baby-sitter, e em Lisboa quem insista em tratados que dispensam referendo porque os especialistas já decidiram em nome do povo. Embriagados por aeroportos e TGVs - quem se lembraria de focar a atenção num dispendioso serviço para transporte de (poucos) passageiros em vez de promover a renovação das vias férreas em bitola europeia para todo o tipo de tráfego? – até nos esquecemos da Política Agrícola Comum, sorvedouro de metade dos recursos comunitários. Coisa pouca, deixa andar...
Tanta irresponsabilidade era evitável e deve ser corrigida. Pertencer à União Europeia é vantajoso se actuarmos com sensatez dentro dela. Basta haver a coragem colectiva de mudarmos a nossa atitude: passarmos a votar, e a votar bem. Temos de arrumar a casa em Portugal, ganhando competência para intervir na Europa. É que caímos num fosso: Cavaco esgotou o prazo de validade, Sócrates nem chegou a passar pelo controlo de qualidade, a oposição continua a cheirar a mofo. Resta-nos assim aceitar que as próximas legislativas são um caso perdido, votar em branco e apostar nas seguintes. Ao prescindirmos de fazer uma escolha entre estes políticos que agora se apresentam, estaremos a criar o espaço para que outros surjam com ideias arejadas. Não vai ser necessário esperar muito, porque na próxima semana já se vai perceber que afinal ficou tudo na mesma. E isso muda tudo.
(publicado no JN de 2009/09/24)
Atacou-me outra vez. Li a notícia de que nos vão proibir de comprar lâmpadas de incandescência e voltou a vontade de abandonar a União Europeia. Estabelecia-se um acordo qualquer para manter o euro, para ter livre circulação de pessoas e mercadorias um pouco ao estilo da Suíça, mas desistíamos deste desvario sistemático. Se não o país inteiro, ao menos a Região Norte. Proibir, novamente! Não é incentivar, recomendar, certificar, promover alternativas (neste caso nem sequer completamente satisfatórias). Proibir.
Pior do que a Gripe A é a febre de querer implantar à força bom-senso no cidadão, criança incapaz de tomar conta de si. Há sempre em Bruxelas quem se ofereça para baby-sitter, e em Lisboa quem insista em tratados que dispensam referendo porque os especialistas já decidiram em nome do povo. Embriagados por aeroportos e TGVs - quem se lembraria de focar a atenção num dispendioso serviço para transporte de (poucos) passageiros em vez de promover a renovação das vias férreas em bitola europeia para todo o tipo de tráfego? – até nos esquecemos da Política Agrícola Comum, sorvedouro de metade dos recursos comunitários. Coisa pouca, deixa andar...
Tanta irresponsabilidade era evitável e deve ser corrigida. Pertencer à União Europeia é vantajoso se actuarmos com sensatez dentro dela. Basta haver a coragem colectiva de mudarmos a nossa atitude: passarmos a votar, e a votar bem. Temos de arrumar a casa em Portugal, ganhando competência para intervir na Europa. É que caímos num fosso: Cavaco esgotou o prazo de validade, Sócrates nem chegou a passar pelo controlo de qualidade, a oposição continua a cheirar a mofo. Resta-nos assim aceitar que as próximas legislativas são um caso perdido, votar em branco e apostar nas seguintes. Ao prescindirmos de fazer uma escolha entre estes políticos que agora se apresentam, estaremos a criar o espaço para que outros surjam com ideias arejadas. Não vai ser necessário esperar muito, porque na próxima semana já se vai perceber que afinal ficou tudo na mesma. E isso muda tudo.
(publicado no JN de 2009/09/24)
2009/09/24
A cidade praça a praça
Ver a área urbana apenas à escala macro faz com que o território fique "sem dono"
Em tempo eleitoral, meditemos sobre os espaços públicos nas cidades e, em particular, as suas praças como pontos de centralidade local, de convívio e negócio. Ver a área urbana apenas à escala macro, desleixando a micro-gestão que afecta directamente os cidadãos na sua vivência diária, faz com que o território fique "sem dono" - é de todos mas não é de ninguém.
A cidade não é saudável se não for ocupada e bem tratada. Uma zona deserta nalgumas horas do dia é inevitavelmente tomada de assalto pela insegurança, o que vai causar ainda mais abandono num ciclo vicioso onde, sem grande resultado, se vão enterrando fortunas em limpeza e manutenção. É indispensável ter a atitude que já se provou resultar no metro do Porto: vigilância atenta e permanente, reparação imediata de danos - só assim se consegue manter uma qualidade digna no serviço ao cidadão, evitando uma degradação incontrolável.
Tratemos as praças segundo os mesmos princípios. Criem-se pequenas equipas polivalentes, em turnos de 8 horas com duas ou três pessoas, 24 horas por dia e todos os dias do ano, que assumam uma praça e algumas ruas adjacentes como "suas", sendo avaliadas pelos resultados que obtêm. Teriam a missão mista de vigilância, jardinagem, limpeza, reparação de mobiliário urbano e, dependendo das qualificações concretas das pessoas que a constituam, até de ajuda a idosos lá residentes em coordenação com a Segurança Social e as IPSS. Entregue-se a sua gestão e os meios correspondentes às juntas de freguesia, que passariam a combinar a actuação com os serviços da Câmara e a Polícia.
E dinheiro? Façam-se bem as contas, incluindo todos (mas mesmo todos) os custos. Quanto se gasta actualmente em equipamento destruído pouco tempo depois de ser instalado? Quanto em manutenção para disfarçar actos de vandalismo? Quanto custa a fuga de habitantes e empresas? Se somos pobres, é também porque não sabemos evitar o desperdício. Quanto vale, afinal, reabilitar uma cidade em comparação com um TGV, um aeroporto ou uma auto-estrada?
(publicado no JN de 2009/09/10)
Em tempo eleitoral, meditemos sobre os espaços públicos nas cidades e, em particular, as suas praças como pontos de centralidade local, de convívio e negócio. Ver a área urbana apenas à escala macro, desleixando a micro-gestão que afecta directamente os cidadãos na sua vivência diária, faz com que o território fique "sem dono" - é de todos mas não é de ninguém.
A cidade não é saudável se não for ocupada e bem tratada. Uma zona deserta nalgumas horas do dia é inevitavelmente tomada de assalto pela insegurança, o que vai causar ainda mais abandono num ciclo vicioso onde, sem grande resultado, se vão enterrando fortunas em limpeza e manutenção. É indispensável ter a atitude que já se provou resultar no metro do Porto: vigilância atenta e permanente, reparação imediata de danos - só assim se consegue manter uma qualidade digna no serviço ao cidadão, evitando uma degradação incontrolável.
Tratemos as praças segundo os mesmos princípios. Criem-se pequenas equipas polivalentes, em turnos de 8 horas com duas ou três pessoas, 24 horas por dia e todos os dias do ano, que assumam uma praça e algumas ruas adjacentes como "suas", sendo avaliadas pelos resultados que obtêm. Teriam a missão mista de vigilância, jardinagem, limpeza, reparação de mobiliário urbano e, dependendo das qualificações concretas das pessoas que a constituam, até de ajuda a idosos lá residentes em coordenação com a Segurança Social e as IPSS. Entregue-se a sua gestão e os meios correspondentes às juntas de freguesia, que passariam a combinar a actuação com os serviços da Câmara e a Polícia.
E dinheiro? Façam-se bem as contas, incluindo todos (mas mesmo todos) os custos. Quanto se gasta actualmente em equipamento destruído pouco tempo depois de ser instalado? Quanto em manutenção para disfarçar actos de vandalismo? Quanto custa a fuga de habitantes e empresas? Se somos pobres, é também porque não sabemos evitar o desperdício. Quanto vale, afinal, reabilitar uma cidade em comparação com um TGV, um aeroporto ou uma auto-estrada?
(publicado no JN de 2009/09/10)
Rodas a mais
Passei a ser cliente frequente dos transportes públicos e, principalmente, da bicicleta
Decidi abandonar o uso do automóvel dentro da cidade. Passei a ser cliente frequente dos transportes públicos e, principalmente, da bicicleta. Desde a adolescência que não percorria a cidade em duas rodas. Aos 43 anos, com as subidas e descidas do Porto, seria realista este meio de transporte para a vida normal e não apenas como desporto? É. Mas há algumas dificuldades.
É demasiado perigoso o convívio de bicicletas e automóveis na mesma via. Conhecendo os condutores portugueses, escolho ruas com pouco trânsito, subo para os passeios com o devido respeito pelos peões e prefiro horas de menor movimento, remediando assim a ausência de ciclovias. Há espalhados pela cidade inúmeros sinais de proibição de parar/estacionar mas parecem indicar zonas para aparcamento permanente. Exemplo entre muitos: Rua da Constituição. Ruas largas, que permitiriam facilmente a reserva de faixas para velocípedes, ficam congestionadas com trânsito normal.
Morando no centro, verifico que a cidade "encolheu": em poucos minutos consigo chegar a qualquer lado, com ou sem subidas (benditas mudanças!). As compras mais pesadas do supermercado agora são feitas online para entrega ao domicílio. Falta-me experimentar o tempo de chuva. Como as deslocações são habitualmente curtas, conjugando o metro com a bicicleta (para a qual as carruagens têm lugar previsto) desconfio que vou continuar nesta onda radical. O mais difícil será descobrir estacionamento adequado nos locais de destino, pois a Baixa do Porto não está preparada para estes veículos exóticos. Aliás nem para peões, tal a quantidade de lixo que continua a acumular-se nas ruas e transborda dos contentores sem recolha - os autarcas provavelmente passam de carro sem sentir o cheiro ou escorregar na imundice. (Talvez recorrer à meritória iniciativa limparportugal.ning.com?)
Não sendo este um "tema fracturante", os candidatos à Câmara deviam comprometer-se a implantar medidas concretas de favorecimento do uso urbano da bicicleta caso vençam, e a apoiá-las caso percam.
(publicado no JN de 2009/08/27)
Decidi abandonar o uso do automóvel dentro da cidade. Passei a ser cliente frequente dos transportes públicos e, principalmente, da bicicleta. Desde a adolescência que não percorria a cidade em duas rodas. Aos 43 anos, com as subidas e descidas do Porto, seria realista este meio de transporte para a vida normal e não apenas como desporto? É. Mas há algumas dificuldades.
É demasiado perigoso o convívio de bicicletas e automóveis na mesma via. Conhecendo os condutores portugueses, escolho ruas com pouco trânsito, subo para os passeios com o devido respeito pelos peões e prefiro horas de menor movimento, remediando assim a ausência de ciclovias. Há espalhados pela cidade inúmeros sinais de proibição de parar/estacionar mas parecem indicar zonas para aparcamento permanente. Exemplo entre muitos: Rua da Constituição. Ruas largas, que permitiriam facilmente a reserva de faixas para velocípedes, ficam congestionadas com trânsito normal.
Morando no centro, verifico que a cidade "encolheu": em poucos minutos consigo chegar a qualquer lado, com ou sem subidas (benditas mudanças!). As compras mais pesadas do supermercado agora são feitas online para entrega ao domicílio. Falta-me experimentar o tempo de chuva. Como as deslocações são habitualmente curtas, conjugando o metro com a bicicleta (para a qual as carruagens têm lugar previsto) desconfio que vou continuar nesta onda radical. O mais difícil será descobrir estacionamento adequado nos locais de destino, pois a Baixa do Porto não está preparada para estes veículos exóticos. Aliás nem para peões, tal a quantidade de lixo que continua a acumular-se nas ruas e transborda dos contentores sem recolha - os autarcas provavelmente passam de carro sem sentir o cheiro ou escorregar na imundice. (Talvez recorrer à meritória iniciativa limparportugal.ning.com?)
Não sendo este um "tema fracturante", os candidatos à Câmara deviam comprometer-se a implantar medidas concretas de favorecimento do uso urbano da bicicleta caso vençam, e a apoiá-las caso percam.
(publicado no JN de 2009/08/27)
2009/08/23
Faltas de comparência
O que pode um cidadão fazer para não ser mais um ausente?
Deve ser do tempo quente: abundam no país casos de "participação através da ausência".
Governo. José Sócrates, nas páginas do JN, insiste nos grandes projectos de investimento como se o Estado não tivesse já provado, com ele, não estar em condições de projectar nada. Em simultâneo, foge à responsabilidade de encontrar soluções com as autarquias locais para casos como o da Linha do Tua, que tem vindo sistematicamente a destruir. Acena com a ilusão de riqueza num lado, mas esbanja-a noutro.
Oposição. Depois de uma disputa interna no PSD ganha por Manuela Ferreira Leite porque Rui Rio preferiu dedicar-se a outros afazeres, eis que chega a altura da escolha dos candidatos ao Parlamento. Momento importante? Parece que não. Rui Rio, 1.º vice-presidente do PSD, falta ao Conselho Nacional por estar a banhos. Sabe-se posteriormente que António Preto precisa subitamente de engessar o braço, logo por azar dificultando as investigações da Polícia. Que faz Ferreira Leite? Apoia. Rio, o homem impoluto, mantém o silêncio, que para ondas já chegam as da praia e pode estar aqui uma nova hipótese de seguir para Lisboa. Pacheco Pereira, a referência, concentra-se na eleição em Santarém e nem deve ter reparado no caso.
Porto. Candidatos da coligação PSD/CDS ao Executivo camarário. Confirma-se que Lino Ferreira, o (único) vereador da maioria que não é exactamente um "yes-man" e que melhor interacção tem tido com os munícipes, vai colaborar também com esta nova lista. Como? Afastando-se "por comum acordo" com Rui Rio, que lhe agradece a simpatia.
O que pode um cidadão fazer para não ser mais um ausente? Ficam duas sugestões. Primeiro, tornar-se militante do partido com o qual (apesar de tudo) maior afinidade sinta, para internamente ser voz activa que atraia outras. Segundo, enquanto esse partido não tiver programa sensato e prática decente, votar em branco nas eleições. Mas votar, para não se confundir com abstenção desleixada. Pode demorar a passar mas, se dermos um empurrãozinho, não há mal que sempre dure.
(publicado no JN de 2009/08/13)
Deve ser do tempo quente: abundam no país casos de "participação através da ausência".
Governo. José Sócrates, nas páginas do JN, insiste nos grandes projectos de investimento como se o Estado não tivesse já provado, com ele, não estar em condições de projectar nada. Em simultâneo, foge à responsabilidade de encontrar soluções com as autarquias locais para casos como o da Linha do Tua, que tem vindo sistematicamente a destruir. Acena com a ilusão de riqueza num lado, mas esbanja-a noutro.
Oposição. Depois de uma disputa interna no PSD ganha por Manuela Ferreira Leite porque Rui Rio preferiu dedicar-se a outros afazeres, eis que chega a altura da escolha dos candidatos ao Parlamento. Momento importante? Parece que não. Rui Rio, 1.º vice-presidente do PSD, falta ao Conselho Nacional por estar a banhos. Sabe-se posteriormente que António Preto precisa subitamente de engessar o braço, logo por azar dificultando as investigações da Polícia. Que faz Ferreira Leite? Apoia. Rio, o homem impoluto, mantém o silêncio, que para ondas já chegam as da praia e pode estar aqui uma nova hipótese de seguir para Lisboa. Pacheco Pereira, a referência, concentra-se na eleição em Santarém e nem deve ter reparado no caso.
Porto. Candidatos da coligação PSD/CDS ao Executivo camarário. Confirma-se que Lino Ferreira, o (único) vereador da maioria que não é exactamente um "yes-man" e que melhor interacção tem tido com os munícipes, vai colaborar também com esta nova lista. Como? Afastando-se "por comum acordo" com Rui Rio, que lhe agradece a simpatia.
O que pode um cidadão fazer para não ser mais um ausente? Ficam duas sugestões. Primeiro, tornar-se militante do partido com o qual (apesar de tudo) maior afinidade sinta, para internamente ser voz activa que atraia outras. Segundo, enquanto esse partido não tiver programa sensato e prática decente, votar em branco nas eleições. Mas votar, para não se confundir com abstenção desleixada. Pode demorar a passar mas, se dermos um empurrãozinho, não há mal que sempre dure.
(publicado no JN de 2009/08/13)
2009/08/11
Vida inteligente
No máximo seremos colaboradores de Deus na Obra da Criação, mas Ele já deve estar arrependido...
Quem vive com cão ou gato sabe que o bicho tem consciência de si, percebe quando está a fazer asneiras, constrói pequenas estratégias de brincadeira e tem personalidade diferente de outros indivíduos. Já se provou que macacos e golfinhos possuem cultura, ou seja, passam conhecimentos de geração em geração, usam instrumentos. Nós, humanos, afinal não somos tão diferentes deles como pensávamos. Nada legitima a nossa apropriação da Natureza. Somos apenas os mais inteligentes, mais poderosos, e por isso responsáveis pelo uso que fazemos da Terra.
Por que razão se deve proteger uma criança com dois meses de idade? Por ser "propriedade" dos pais, ou porque tem em si própria dignidade que lhe confere direito à vida e a ser bem tratada? Se qualquer gato adulto é em muitos aspectos mais sofisticado que uma criança dessa idade, não lhe deveríamos reconhecer alguns direitos? Os deficientes mentais profundos, que nem sequer a inteligência de um macaco conseguem atingir, devem equiparar-se a "bichos sem direitos"? Qual a linha divisória? A diferença entre humanos e animais não justifica tudo para uns, nada para outros - Darwin ensinou-nos que há muitos graus de evolução.
Soube recentemente do projecto de um biotério na Azambuja para 25 mil animais destinados a experiências científicas. Não duvido das boas intenções dos promotores, mas chocou-me a ênfase no facto de ser "dos maiores da Europa" e "ter capacidade para serviços comerciais". Tenho perfeita noção do que os humanos perdem ao evitarem-se experiências com animais, mas aqui terão sido ultrapassados os limites do indispensável. O tema transcende o estatuto dos animais e leva-nos à ânsia contemporânea do Homem por um nível de conforto ilimitado, à sua dificuldade em encarar a doença, a dor e a morte como necessárias à vida.
O Homem, por prudência e humildade, não deve assumir-se como "Deus" na sua relação com os animais. "Encarregado de educação" fica melhor. No máximo seremos colaboradores de Deus na Obra da Criação mas, constatando a maneira como nos comportamos, Ele já deve estar arrependido...
(publicado no JN de 2009/07/30)
Quem vive com cão ou gato sabe que o bicho tem consciência de si, percebe quando está a fazer asneiras, constrói pequenas estratégias de brincadeira e tem personalidade diferente de outros indivíduos. Já se provou que macacos e golfinhos possuem cultura, ou seja, passam conhecimentos de geração em geração, usam instrumentos. Nós, humanos, afinal não somos tão diferentes deles como pensávamos. Nada legitima a nossa apropriação da Natureza. Somos apenas os mais inteligentes, mais poderosos, e por isso responsáveis pelo uso que fazemos da Terra.
Por que razão se deve proteger uma criança com dois meses de idade? Por ser "propriedade" dos pais, ou porque tem em si própria dignidade que lhe confere direito à vida e a ser bem tratada? Se qualquer gato adulto é em muitos aspectos mais sofisticado que uma criança dessa idade, não lhe deveríamos reconhecer alguns direitos? Os deficientes mentais profundos, que nem sequer a inteligência de um macaco conseguem atingir, devem equiparar-se a "bichos sem direitos"? Qual a linha divisória? A diferença entre humanos e animais não justifica tudo para uns, nada para outros - Darwin ensinou-nos que há muitos graus de evolução.
Soube recentemente do projecto de um biotério na Azambuja para 25 mil animais destinados a experiências científicas. Não duvido das boas intenções dos promotores, mas chocou-me a ênfase no facto de ser "dos maiores da Europa" e "ter capacidade para serviços comerciais". Tenho perfeita noção do que os humanos perdem ao evitarem-se experiências com animais, mas aqui terão sido ultrapassados os limites do indispensável. O tema transcende o estatuto dos animais e leva-nos à ânsia contemporânea do Homem por um nível de conforto ilimitado, à sua dificuldade em encarar a doença, a dor e a morte como necessárias à vida.
O Homem, por prudência e humildade, não deve assumir-se como "Deus" na sua relação com os animais. "Encarregado de educação" fica melhor. No máximo seremos colaboradores de Deus na Obra da Criação mas, constatando a maneira como nos comportamos, Ele já deve estar arrependido...
(publicado no JN de 2009/07/30)
2009/08/05
Telefonem-me!
Os portugueses continuam a não compreender como podem utilizar a "lei do menor esforço" em seu benefício.
Os portugueses continuam a não compreender como podem utilizar a "lei do menor esforço" em seu benefício. É desconfiança, receio de que lhes escape o controlo dos acontecimentos, enfim, medo de perder o poder. Ou então incompetência pura e simples.
Vejamos o que se passa nas autarquias. Para a maior parte dos assuntos locais (ao contrário dos nacionais) não são relevantes as diferenças ideológicas entre os partidos concorrentes às eleições. Questões estritamente técnicas ou apenas de bom senso proporcionariam consensos frequentes. O ciclo vicioso em que disparate de um lado estimula disparate oposto do lado contrário só se quebra com o envolvimento dos cidadãos que conseguem ultrapassar a guerrilha partidária, organizando-se em grupos de interesse temático para dar resposta ao que as estruturas políticas convencionais não conseguem resolver.
Foi neste espírito de aproveitar a riqueza dispersa pela sociedade civil que nasceu recentemente a Rede Norte: uma plataforma destinada a agregar competências complementares da Associação de Cidadãos do Porto, da Associação Comboios XXI (de Braga), da Campo Aberto (dedicada ao ambiente e ordenamento do território), e de mais organizações que a estas se queiram reunir. Junta-se assim massa crítica para gerar propostas concretas baseadas em estudos sólidos, que serão oferecidas ao poder político para implantação. Em termos simples: é "preparar a papinha" para quem tem o poder executivo.
Ser bom autarca exige estimular a colaboração supra-partidária com a sociedade civil. Mas exige também que os partidos avancem com sugestões e programas para debate a tempo e horas. Assim, lamento este mau exemplo de que tive conhecimento por fontes que julgo fidedignas: na data em que escrevo, a menos de três meses das eleições, não há nenhum candidato, de nenhum partido, à Câmara de Arouca. Haverá eventuais potenciais candidatos a candidatos, mas aparentemente todos "aguardam para ver". Por isso, se o impasse se mantiver, telefonem-me. Eu candidato-me.
(publicado no JN de 2009/07/16)
Os portugueses continuam a não compreender como podem utilizar a "lei do menor esforço" em seu benefício. É desconfiança, receio de que lhes escape o controlo dos acontecimentos, enfim, medo de perder o poder. Ou então incompetência pura e simples.
Vejamos o que se passa nas autarquias. Para a maior parte dos assuntos locais (ao contrário dos nacionais) não são relevantes as diferenças ideológicas entre os partidos concorrentes às eleições. Questões estritamente técnicas ou apenas de bom senso proporcionariam consensos frequentes. O ciclo vicioso em que disparate de um lado estimula disparate oposto do lado contrário só se quebra com o envolvimento dos cidadãos que conseguem ultrapassar a guerrilha partidária, organizando-se em grupos de interesse temático para dar resposta ao que as estruturas políticas convencionais não conseguem resolver.
Foi neste espírito de aproveitar a riqueza dispersa pela sociedade civil que nasceu recentemente a Rede Norte: uma plataforma destinada a agregar competências complementares da Associação de Cidadãos do Porto, da Associação Comboios XXI (de Braga), da Campo Aberto (dedicada ao ambiente e ordenamento do território), e de mais organizações que a estas se queiram reunir. Junta-se assim massa crítica para gerar propostas concretas baseadas em estudos sólidos, que serão oferecidas ao poder político para implantação. Em termos simples: é "preparar a papinha" para quem tem o poder executivo.
Ser bom autarca exige estimular a colaboração supra-partidária com a sociedade civil. Mas exige também que os partidos avancem com sugestões e programas para debate a tempo e horas. Assim, lamento este mau exemplo de que tive conhecimento por fontes que julgo fidedignas: na data em que escrevo, a menos de três meses das eleições, não há nenhum candidato, de nenhum partido, à Câmara de Arouca. Haverá eventuais potenciais candidatos a candidatos, mas aparentemente todos "aguardam para ver". Por isso, se o impasse se mantiver, telefonem-me. Eu candidato-me.
(publicado no JN de 2009/07/16)
Eoepderemndr locsia
No estado em que o Estado está, quanto menos Estado melhor será o nosso estado. Pelo menos nos tempos mais próximos.
As ideias dos candidatos autárquicos sobre como a Administração Pública pode colaborar com a sociedade civil para desenvolver o país são geralmente tão claras quanto o título deste texto. Mas, tal como no anagrama acima, se calhar a matéria-prima está lá, precisa é de organização. As boas intenções sem sustentabilidade são armadilhas perigosas. De cada vez que há eleições, e ante a urgência de apresentar propostas cativantes, recorre-se a chavões da moda porque, se estão na moda, alguma justificação positiva deve haver...
Assim tem sido também com o "empreendedorismo social". No estado em que o Estado está, quanto menos Estado melhor será o nosso estado. Pelo menos nos tempos mais próximos. Daí que a iniciativa privada, quando orientada por princípios filantrópicos alicerçados em boas práticas de gestão, naturalmente mais ágil do que as estruturas públicas, surja com iniciativas em que o lucro é instrumento de intervenção social. Porque isso é sustentável. Porque é com dinheiro que se concretizam os projectos. Porque a liberdade e a justiça exigem uma economia sã. Há aqui um papel para as autarquias que, no âmbito das suas competências, poderão facilitar este esforço privado sem se tornarem dominantes.
Este conceito, tradução possível do inglês "social entrepreneurship", é válido para diferentes escalas de intervenção. Desde o micro-crédito no pequeno comércio local, ao capital de risco em grande escala, passando por investimentos de média dimensão em projectos de reabilitação urbana com o envolvimento da população, o objectivo é maximizar o impacto social. Em vez criar riqueza para acumular ou eventualmente gastar mal, procura-se o lucro para reinvestir em benefício comum, envolvendo a comunidade.
O espírito de actuação é precisamente o oposto dos grandes "planos estratégicos" de intervenção pública. A sociedade civil não precisa de "educação" nem de orientação. Importa deixá-la organizar-se e remover as barreiras que lhe foram sendo erguidas por quem convive mal com o sucesso alheio.
(publicado no JN de 2009/07/02)
As ideias dos candidatos autárquicos sobre como a Administração Pública pode colaborar com a sociedade civil para desenvolver o país são geralmente tão claras quanto o título deste texto. Mas, tal como no anagrama acima, se calhar a matéria-prima está lá, precisa é de organização. As boas intenções sem sustentabilidade são armadilhas perigosas. De cada vez que há eleições, e ante a urgência de apresentar propostas cativantes, recorre-se a chavões da moda porque, se estão na moda, alguma justificação positiva deve haver...
Assim tem sido também com o "empreendedorismo social". No estado em que o Estado está, quanto menos Estado melhor será o nosso estado. Pelo menos nos tempos mais próximos. Daí que a iniciativa privada, quando orientada por princípios filantrópicos alicerçados em boas práticas de gestão, naturalmente mais ágil do que as estruturas públicas, surja com iniciativas em que o lucro é instrumento de intervenção social. Porque isso é sustentável. Porque é com dinheiro que se concretizam os projectos. Porque a liberdade e a justiça exigem uma economia sã. Há aqui um papel para as autarquias que, no âmbito das suas competências, poderão facilitar este esforço privado sem se tornarem dominantes.
Este conceito, tradução possível do inglês "social entrepreneurship", é válido para diferentes escalas de intervenção. Desde o micro-crédito no pequeno comércio local, ao capital de risco em grande escala, passando por investimentos de média dimensão em projectos de reabilitação urbana com o envolvimento da população, o objectivo é maximizar o impacto social. Em vez criar riqueza para acumular ou eventualmente gastar mal, procura-se o lucro para reinvestir em benefício comum, envolvendo a comunidade.
O espírito de actuação é precisamente o oposto dos grandes "planos estratégicos" de intervenção pública. A sociedade civil não precisa de "educação" nem de orientação. Importa deixá-la organizar-se e remover as barreiras que lhe foram sendo erguidas por quem convive mal com o sucesso alheio.
(publicado no JN de 2009/07/02)
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