2011/04/22

Os meus óculos

A geração que teve o mérito de arriscar o 25 de Abril não acabou o trabalho da revolução. Vendo à distância, já muito fez ela.

Percebi há dias que tenho de trocar de óculos. As lentes estão riscadas e a armação já gasta, embora a graduação se mantenha. Consultei várias lojas e constatei dois fenómenos. O primeiro é a moda condicionar de forma brutal os clientes: aparentemente quase não há procura, e portanto escasseia a oferta, de armações para lentes com corte redondo (mais leves para miopia forte); é agora tudo quadrado. Como não sigo telenovelas nem leio crónica social, admito estar desfasado do mundo real. Segundo, o preço das lentes aumentou generalizadamente para o dobro desde 2006 até hoje, o que só se explica por falta de regulação no mercado. Mais um caso de concorrência deficiente.

Mas o que de facto me preocupa é a dificuldade dos portugueses em ver ao longe. Tanta consciência social saída do armário, revoltada com a crise mesmo à frente do nariz, se tinha mantido confortavelmente adormecida quando o sofrimento humano se revelava noutras partes do Mundo! Os gastos supérfluos agora chocam, pelo contraste local. Só agora. Aumenta-se o contraste e fica tudo mais nítido: os recursos abundantes de que apesar de tudo dispomos não devem ser geridos para nosso benefício exclusivo.

Há ex-deputados que se afirmam "excluídos" das listas, como se o lugar no Parlamento fosse um contrato de trabalho sem termo; há quem compare governo e oposição como se o primeiro não tivesse exercido o poder nos últimos anos; há quem se queixe dos credores como se os devedores não fossem os primeiros responsáveis pelas suas dívidas. Se a visão está preguiçosa, talvez a memória ajude. A geração que teve o mérito de arriscar o 25 de Abril não acabou o trabalho da revolução. Vendo à distância, já muito fez ela. Hoje é tempo de completarmos esse esforço, mesmo fora de moda. Que não haja greves à Democracia.

(publicado no JN de 2011/04/21)

2011/04/08

Catequese

O mesmo modelo de autarquia não pode servir em simultâneo para uma freguesia com 2000 habitantes e para outra 20 vezes maior, na mesma cidade

Uma freguesia com 11452 eleitores no Porto será demasiado pequena? É cerca de um quarto dos existentes em Paranhos, um terço dos de Ramalde ou Campanhã, metade dos de Cedofeita, semelhante aos da Foz ou Aldoar. E uma área de 149 hectares? É um quinto de Paranhos ou Campanhã, um quarto de Ramalde, menos que a Foz ou Massarelos, apenas um pouco maior que Santo Ildefonso.

Esta freguesia não existe. Existirá quando se fundirem as actuais quatro freguesias do Centro Histórico: Sé, São Nicolau, Vitória e Miragaia. Em face destes números, e sendo evidente que a diversidade populacional é maior em Paranhos, Campanhã ou Foz do que ali, como se explica a ausência de um novo desenho da divisão do território? Não se trata apenas de sermos poupados (isso acaba por ser um detalhe), mas principalmente de ter dimensão adequada a uma administração local eficaz. O mesmo modelo de autarquia não pode servir em simultâneo para uma freguesia com 2000 habitantes e para outra 20 vezes maior, na mesma cidade.

Tenho insistido neste tipo de reformas desde 2004, outros defendem-no há bastante mais tempo, agora quase todos o consideram inevitável mas ainda não se avançou no Norte. Queixamo-nos. Depois, claro, não é da nossa inércia, a culpa é do centralismo malandro em Lisboa, da ausência de regionalização... É urgente organizarmo-nos para transformar o interior dos partidos, como militantes, sem desistir. A liderança na Política difere da liderança numa empresa, pois a missão é representar os cidadãos e não agir como patrão deles. É que a sociedade civil tem características felinas: uma atitude obediente será natural num cão, mas um gato exige ser convencido a colaborar. Daí que a nível nacional, no meio do ruído, Passos Coelho prepare um programa sensato; Sócrates insiste em berrar ao gato.

(publicado no JN de 2011/04/07)

2011/03/25

Depois do fim do mundo

Até eu, que não frequento mercados (a mim trazem-me as refeições já prontas), farejo peixe podre à légua

Alguns senadores da nação, em pânico, receiam catástrofes de proporções bíblicas durante a espera por eleições. (Dar a voz ao povo agora, que despropósito!) Sendo eu própria uma senadora mais qualificada do que eles, vou ter de explicar-lhes algumas noções básicas, ocupando este espaço que habitualmente cedo ao cronista acima identificado.

1 - Os humanos (pelo menos alguns portugueses) imaginam que conseguem enganar os mercados vendendo o seu peixe podre. Até eu, que não frequento mercados (a mim trazem-me as refeições já prontas), farejo peixe podre à légua.
2 - Será razoável esperar dramas financeiros realmente graves neste curto período, como se não existisse capacidade de negociar a nível europeu uma solução transitória para manter o fornecimento dos meus biscoitos, sabendo-se que quem aí vem tem outro nível de respeitabilidade?
3 - Estou disposta a suportar uma ração de qualidade inferior durante algum tempo, mas só se tiver a garantia de que a poupança não continua a ser distribuída aos ratos que vivem à custa do Estado.

Caro Pedro, aqui vão alguns conselhos de gata para coelho. Não compliques, aposta em medidas simples, que se percebam. Trata de pouca coisa ao mesmo tempo, concentra-te no essencial. Não te fies nos que te dão receitas mas nunca tentaram eles próprios cozinhá-las quando tiveram oportunidade para isso. Escolhe colaboradores decentes, porque foi a bicharada interesseira e quezilenta que nos trouxe a este ponto. Não tenhas receio de delegar e depois avaliar. Mantém-te atento ao que se vai escrevendo sobre o teu trabalho, especialmente se é vindo de quem não tem como profissão palrar sobre acção alheia. Tens de criar condições para que os privados produzam riqueza, com liberdade e ética. Eles, não a Administração Pública, é que sabem como isso se faz.

(publicado no JN de 2011/03/24)

2011/03/11

Hoje é 24 de Abril

Os portugueses não são uma massa informe e uniforme, não defendem todos a mesma coisa e alguns nem defendem coisa nenhuma

Os condomínios fechados só isolam do exterior até que alguém demonstra que afinal são mais abertos do que se pensava. A crise não é de agora, mas agora é que os efeitos chegam a nós, a doer. É novidade que o mundo está cheio de problemas de insustentabilidade global? É surpresa que há gente em enormes dificuldades, até há pouco demasiado longe para verdadeiramente nos incomodar?

Os portugueses não são uma massa informe e uniforme, não defendem todos a mesma coisa e alguns nem defendem coisa nenhuma. Mas é evidente um sentimento generalizado de insatisfação, de pré-revolta, de revolução a caminho. Erram as críticas de que quem protesta não tem propostas construtivas para apresentar, pois não são as pessoas individualmente que têm de encontrar soluções para a actuação da Administração Pública nem redigir leis simples e sensatas para permitirem uma vida em sociedade. São os partidos.

Não se condenem os partidos por aproveitarem a onda de indignação. Pelo contrário, é obrigação deles fazerem-no, indo de encontro às bases que é suposto representarem. Os partidos são uma ferramenta da Democracia e reflectem a qualidade do povo. Se agora colectivamente nos queixamos, o que fizemos nas últimas eleições? E nas anteriores? E nas anteriores a essas? Aguentamos hoje o resultado de más escolhas, mas também da incapacidade do país gerar melhores candidatos. Apesar disso ainda há quem vá votar neste PS de Sócrates ou se contente com um presidente da República que, sendo parte do sistema há longos anos, finge estar acima dele. Tal como um alcoólico precisa de reconhecer que tem um problema para o poder ultrapassar, também neste Sábado, dia 12, muitos darão o primeiro passo de um caminho de mudança. Depois cada um seguirá na sua direcção, certa ou errada, mas parados não ficaremos.

(publicado no JN de 2011/03/10)

2011/02/25

O exemplo dos porcos

Neste ambiente em que nos cavam um buraco financeiro empréstimo a empréstimo, o PR continua a achar que não está em causa o regular funcionamento das instituições

Há tempos um amigo confessava-me que se sentia identificado com os porcos: os cães olhavam-no de baixo, os gatos de cima, mas os porcos é que o tratavam como igual. Lembrei-me disto ao analisar a actuação do governo. Um governo que só tem olhos para o TGV e encerra linhas ferroviárias umas atrás das outras, isolando cada vez mais o interior, pensa certamente que todos preferem deslocar-se por estrada tal como os ministros. Um governo que aposta em ditadura atrás de ditadura para prioridade da diplomacia económica, Magalhães aqui, Magalhães ali, admite seguramente que os portugueses partilham os mesmos valores que Sócrates. Um governo que recorre a habilidade contabilística atrás de habilidade contabilística, venha mais um fundo de pensões para Europa ver, assine-se mais uma parceria para as próximas gerações pagarem, acredita sem dúvida que os eleitores, tal como os seus membros, não aprendem com os erros.

Neste ambiente em que nos cavam um buraco financeiro empréstimo a empréstimo, o Presidente da República continua a achar que não está em causa o regular funcionamento das instituições. Resta-nos por isso fingir perante os nossos credores, até 10 de Março, que nada de especial se passa. E rezar para que, nesse dia, algum partido tenha o bom senso de apresentar uma moção de censura minimalista para ser aprovada por toda a oposição sem excepção: “este governo é mau de mais, basta!”

Depois das eleições, e em face dos rumores que anunciam a preferência de Passos Coelho por um executivo com poucos ministros, fico esperançado numa actuação menos dispersa, logo mais incisiva no essencial. Que aposte na complementaridade com a sociedade civil e concretize uma limpeza geral no Estado. É que eu simpatizo com cães, gatos e porcos, mas preferia não ser obrigado a viver numa pocilga.

(publicado no JN de 2011/02/24)

2011/02/11

Ah Valente!

A Agência para o Desenvolvimento das Indústrias Criativas, sexta-feira dia 18 no Porto, vai desafiar a iniciativa privada para a reabilitação urbana “low-cost”

Apesar do peso sufocante do Estado, há sempre quem insista em que faça mais, qualquer coisa mais, para vencer a crise. Preferia que o Estado deixasse de tentar ajudar, a não ser cumprindo bem as funções que exclusivamente lhe cabem. Se se constatam tantas falhas em serviços essenciais, tão grave falta de recursos, é inaceitável que disperse a atenção por outras áreas, com prejuízo de prioridades mais altas.

Por exemplo, para quê agitar agora o ambiente escolar, destruindo eventualmente organizações que estão a funcionar bem, só para que escolas públicas substituam privadas? As privadas em causa não estão a prestar adequadamente o serviço público? Se não estão, por que razão não foram já encerradas? Ao contrário, se há resposta suficientemente boa da sociedade civil neste campo, para quê procurar um duvidoso óptimo antes de resolver o que está comprovadamente mal noutros que não são assumidos por ela?

Ainda mais flagrante é a eterna insistência do Governo em actuar na área da economia, com intervenções dirigidas às PME, à exportação, à agricultura, aos “clusters” mais diversos, ao emprego, às mulheres, aos jovens... Insucesso atrás de insucesso. Receio que esta postura tenha origem nas frustrações de quem é gestor assalariado, quando gostava de ser empresário ou empreendedor social mas não tem perfil nem coragem para isso.

A Agência para o Desenvolvimento das Indústrias Criativas, sexta-feira dia 18 no Porto, vai desafiar a iniciativa privada para a reabilitação urbana “low-cost”. Como sempre, o mais difícil é encontrar detentores de capital próprio com abertura de espírito para estudar um negócio novo. Valente de Oliveira afirmou há dias, contra todas as evidências, que é simples obter capital para pequenos projectos. Espero que ele compareça, estou ansioso por aprender.

(publicado no JN de 2011/02/10)

2011/01/28

O Zero

Até era preciso colocar o zero à esquerda do número do bilhete de identidade, senão o eleitor não era encontrado

Há já alguns anos um tio meu, ao procurar o portão de embarque num aeroporto, corredor aqui, porta ali, escada acolá, passou inadvertidamente da zona de acesso público para a reservada a passageiros sem ser submetido a controlo de entrada. Dirigiu-se então a um funcionário, alertando para a falha de segurança. O homem sossegou-o: “não se preocupe, por esse caminho ninguém vem porque não o descobre, só se fosse alguém muito mal intencionado”.

Está a passar-se algo de semelhante com a resistência à substituição dos números fiscal, de BI, segurança social, eleitor, carta de condução, etc., por apenas um. Argumentam com a privacidade e segurança do cidadão perante o Estado, esquecendo que o Estado já possui todos estes dados e só não os cruza (dentro ou fora da lei) se não quiser. Estabeleçam-se antes procedimentos seguros com um único número (já foram estudados), atribuindo permissões limitadas no acesso às várias bases de dados conforme o fim a que se destina.

Com esta profusão de números acontecem trapalhadas como a das eleições. Teria havido “um pico de acessos, um tsunami” que afogou os servidores. Só por total incompetência. Imagine-se que até era preciso colocar o zero à esquerda do número do bilhete de identidade, senão o eleitor não era encontrado! Para menos de 10 milhões de eleitores, num sistema bem montado, a exigência computacional e capacidade de transmissão necessária são baixíssimas. Usando ferramentas desadequadas e programação incompetente, o problema pode tornar-se facilmente 100, 1000, 10000 vezes pior. A informática é mesmo assim. Veja-se em 1998 a anedota da colocação dos professores, relatada em http://shortlinks.etc.pt/profs, quando afinal um velhinho computador de secretária bem configurado resolveu a questão. Nunca se subestime a estupidez humana.

(publicado no JN de 2011/01/27)

2011/01/14

Um chuto na mãe

Isto faz-me lembrar o tempo em que os filhos de senhoras de virtude duvidosa eram considerados menos dignos

No pequeno mundo de quem é alheio aos mexericos sobre celebridades, pícaras ou não, aterram ocasionalmente notícias espantosas. Contava-se há dias que Cristiano Ronaldo se afirmava decidido a impedir que a mãe do seu filho voltasse a vê-lo, já que o tinha “vendido”. Custa ver um extraordinário jogador de futebol revelar ser tão imaturo mas, talvez para lembrar a humildade da natureza humana, é frequente o notável desenvolvimento de alguns dons prejudicar a superação das limitações que com eles coexistem.

Atendendo às imperfeições individuais, as sociedades foram criando mecanismos que nos permitem viver em alguma harmonia. Há leis que regulam o exercício do poder paternal. O sistema de Justiça não pode ser conivente quando uma criança é tratada como objecto propriedade dos pais, que estabelecem um contrato (portanto inválido) sem qualquer consideração pelos direitos do filho. Neste caso não me preocupam os pais, somente o filho. Um filho deve poder conhecer a mãe, agora arrependida do negócio. O resto mete nojo.

Este menor tem a mãe que lhe calhou e tem direito a ela, seja ela oportunista ou apenas jovem inconsciente; ter pais irresponsáveis não o diminui. Não é “vendeu, está vendido”. Isto faz-me lembrar o tempo em que os filhos de senhoras de virtude duvidosa eram considerados menos dignos, como se tivessem culpa dos erros de quem os gerou!

Preocupa-me também a educação do miúdo, que agora será assumida em “outsourcing” pela família do pai, não pelo pai! Duvido que a mãe, dados os precedentes, tenha capacidade para o fazer sem acompanhamento competente. Talvez, caindo em si, ambos cresçam junto com o seu filho e provem, eles sim, ser dignos dessa bênção. Senão, que a Justiça não se afunde em medidas que “paralisam o efeito suspensivo” de outras, como ouvi num telejornal.

(publicado no JN de 2011/01/13)

2010/12/31

600 euros

O próximo ano vai ser bom. Vamos ter mais falências, quem não ficar desempregado passará a ganhar menos, perderemos terreno face ao resto da Europa

O próximo ano vai ser bom. Terminámos 2010 a esbanjar os últimos cêntimos em compras de Natal. Excelente! Iniciaremos 2011 limpos, sem dinheiro para vícios. Vamos ter mais falências, quem não ficar desempregado passará a ganhar menos, perderemos terreno face ao resto da Europa. Isso é saudável, pois finalmente não conseguiremos escapar aos remédios que a nossa inconsciência colectiva tornou indispensáveis. Abandonaremos a patetice da “homeopatia política”, medida aqui, medida ali, sempre em doses ínfimas totalmente ineficazes, administradas por um Governo tão zombie como nós.

Quando o PSD com Passos Coelho inevitavelmente tomar o poder, vai ter de separar “Estado” e “País”. O controlo do Estado será recuperado através da redução das áreas de actuação até estar razoavelmente domado, concentrando-se no essencial das suas funções inalienáveis (como garantir condições mínimas de sobrevivência a quem a economia desamparar, por muito que pese a todos os outros). O País, ao contrário, tem de ser libertado do Estado que o tolhe e de si próprio que se deixa adormecer.

Portugal precisa de ser acordado à força. Não é com um salário mínimo de 500 euros que se dá um abanão. Recomendo aumentá-lo talvez para 600 euros em um ou dois anos, iniciando uma convergência gradual com o dos nossos vizinhos europeus, para acelerar o ritmo de falência daquelas empresas que se arrastam à custa de mão-de-obra barata e frequentemente sem qualificações. Essas deverão morrer para que possam mais rapidamente nascer outras saudáveis. O custo social desse processo, muito oneroso também para o Estado, é tanto menor quanto mais depressa ele se desenrolar. De altas taxas de desemprego já ninguém nos livra. Resta-nos agora fazer com que elas venham cedo e cedo sejam tratadas.

Bom ano de 2011!

(publicado no JN de 2010/12/30)

2010/12/17

Wiki-chiliques

As reacções dos Estados desmascarados pelas iniciativas da Wikileaks demonstram quão podres são as elites que exercem o poder em nosso nome

Raramente se revela de forma tão evidente o equilíbrio precário em que as democracias ocidentais vivem. As reacções dos Estados desmascarados pelas iniciativas da Wikileaks demonstram quão podres são as elites que exercem o poder em nosso nome. O caso, de tão simples, assusta.

1) Têm sido divulgadas pela Wikileaks provas de actividades de duvidosa ética ou mesmo criminosas, conhecidas e nalguns casos promovidas por Estados supostamente “decentes”.

2) Os meios usados pelas fontes para passar estas informações foram irregulares mas, atendendo à sua natureza e ao claríssimo interesse público de muitas delas, condenável seria não agir.

3) A Wikileaks, pelo seu líder Julian Assange, seguirá uma agenda anti-americana. Terá sido irresponsável por não filtrar os dados que colocassem pessoas em perigo ou fossem irrelevantes para os altos valores que afirma defender. É possível. Tudo isto justifica então procedimentos mais elaborados como os que propõe a nova organização Openleaks: entregar o que recebe das fontes anónimas a meios de comunicação social por elas escolhidos para tratamento jornalístico, em vez de divulgar directamente.

4) Países que julgávamos terem uma estrutura judicial madura, como a Suécia e a Grã-Bretanha, são afinal terrivelmente permeáveis a pressões políticas. É inaceitável a perseguição feita a Julian Assange sob pretexto de uma acusação banal de duas senhoras suecas arrependidas de partilhar lençóis com quem conheciam há apenas poucas horas.

5) Se tudo isto não originar um terramoto com origem na sociedade civil, bem mereceremos a triste situação dos países que até agora classificávamos como pouco respeitadores dos direitos humanos, até fundamentalistas. Contudo, não nos sentiremos privados da liberdade, pois afinal nunca a teremos verdadeiramente desejado.

(publicado no JN de 2010/12/16)

2010/12/03

Desorientação criativa

Para ser útil, bastaria à ADDICT seleccionar alguns projectos que não tenham avançado e descobrir como ultrapassar as barreiras que encontraram

A ADDICT - Agência para o Desenvolvimento das Indústrias Criativas, criada em 2008 por universidades, fundações, CCDRN, etc., carece ela própria de uma injecção de criatividade. Os seus recursos humanos perdem-se no pesadelo da candidatura a programas de financiamento, insistindo nesta tragédia nacional que nos impede de gerar riqueza.

Uma agência destas só faz sentido se o “cluster” que pretende ajudar tiver grande impacto (ao menos potencial) na economia, explorando propriedade intelectual. Contudo, a ADDICT optou por restringir o seu interesse às actividades que quando muito proporcionam “copyright”, excluindo as que são rentabilizadas por registo de patentes. Troca engenharia, biotecnologia, ciências da saúde ou do mar, por “animação de bairro”, “intervenção em espaços públicos”, “festivais” e “eventos”. E propõe-se organizar conferências de especialistas em animação de bairro, intervenção em espaços públicos, festivais e eventos.

A criatividade tem de ser usada para gerar muito valor acrescentado e lucros relevantes. Para ser verdadeiramente útil, bastaria à ADDICT seleccionar alguns projectos de “indústrias criativas” que não tenham avançado apesar de parecerem válidos, analisá-los profundamente, e com os seus promotores descobrir como ultrapassar as barreiras que encontraram. Deveria também actuar como “broker” de capital estrangeiro pois, por mais milhões portugueses que se anunciem, o certo é que os investidores locais recusam financiamento a projectos que lhes são apresentados, não porque eles sejam maus, não porque não haja dinheiro disponível, mas apenas porque não se enquadram no respectivo "perfil de portfólio". Desperdiçam-se assim oportunidades sem que o país consiga encontrar meios alternativos de utilizar essa energia de que tão desesperadamente precisa.

(publicado no JN de 2010/12/02)

2010/11/19

Venham os chineses!

Se o Estado, ou alguma entidade financiada por fundos públicos, irresponsavelmente me oferecesse um salário "escandaloso", eu aceitava

Há tempos contava-me uma residente do centro histórico do Porto, transbordando orgulho, como ela e o marido tinham conseguido melhorar a sua casa à custa de “muita pedrinha roubada” a umas obras da câmara que decorriam perto. Fizeram eles bem – não tinham outros recursos e aplicaram com sensatez aqueles que conseguiram de forma pouco convencional. A gestão que a Administração Pública faz dos nossos impostos é em geral tão má que só mesmo com esta revolta civil se conseguirá inverter o rumo.

É por isso que se o Estado, ou alguma entidade financiada por fundos públicos, irresponsavelmente me oferecesse um salário "escandaloso", eu aceitava. E aceitava não apenas sem remorsos, mas por sentido de dever. Tenho a certeza de que esse dinheiro seria utilizado com mais eficácia em benefício público na minha mão do que na do Estado. Do ponto de vista ético, aquilo que realmente me interessaria era usar bem os recursos que, legalmente, tivesse conquistado.

No passado fim de semana morreu um bombeiro na derrocada de um edifício degradado no Porto. Não adianta nada vir agora com a lengalenga das culpas da câmara, do Estado, da lei das rendas, da crise, etc. A verdade é que há quem tenha meios para investir e não o faça. Era possível resolver a situação transformando o problema num bom negócio compatível com os interesses da população local, mas a inércia da nossa iniciativa privada é enorme. O país só será sustentável se conseguir conciliar economia, ambiente e justiça social. Se os portugueses não assumem as suas responsabilidades, enquanto se entretêm a tentar sugar incentivos ao QREN disfarçados de capital de risco (quantos dos inúmeros fundos anunciados estão verdadeiramente activos a aplicar capitais próprios?), outros aproveitarão as oportunidades que estamos a desperdiçar.

(publicado no JN de 2010/11/18)

2010/11/05

Eu não sou eu

Tenho contactado com “velhos pobres” e, na esmagadora maioria dos casos, a situação deles é bem pior do que a dos “novos”

1) Os acontecimentos políticos recentes e a consequente reacção popular lembraram-me aquela anedota absurda do suicida que, antes de se lançar da ponte, gritava “eu não sou eu!” e, quando foram recolher o cadáver, verificaram que de facto não era ele mas sim o primo. É o ex-primeiro-ministro e candidato presidencial a segundo mandato que vê “com muita apreensão o desprestígio da classe política”. É o comentador convicto da urgência de um entendimento entre PS e PSD para combate à crise ao mesmo tempo que reconhece serem inconciliáveis as políticas em causa. É o primeiro-ministro que insiste no cumprimento do défice depois de se ter sistematicamente desleixado nos anos anteriores. É o cidadão anónimo que se queixa do Governo mas, teimoso, contribui para as vitórias do partido que o sustenta. Neste ambiente não admira que Passos Coelho, desejando manter uma saudável democracia interna no PSD, aceitasse um acordo para o Orçamento de Estado. Os militantes do PSD, tal como os restantes portugueses, querem ser enganados pelo Governo escolhendo um “mal menor” que será sempre “mal” mas dificilmente “menor”. Havia dúvidas? Lá veio Sócrates insistir no TGV.

2) Arriscando generalizações injustas, fico sempre de pé atrás quando me falam em “novos pobres”. Tenho contactado com “velhos pobres” e, na esmagadora maioria dos casos, a situação deles é bem pior do que a dos “novos”. Leio notícias de quem recorre a apoio alimentar mas ainda tem carro à porta e usufrui de uma boa casa, e apetece-me trocá-los de situação com os “velhos”. A queda brusca de poder de compra será traumatizante, mas a tolerância para o habitual choradinho das dificuldades financeiras por ausência de cortes radicais nas despesas começa a ser revoltante para quem vive em situação realmente má e continua abandonado.

(publicado no JN de 2010/11/04)

2010/10/22

tiago.fernandes@gmail.com

Transformar cada português num micro-empresário é uma fantasia que gera empresas sem dimensão mínima sustentável

Este país em que tantos teimam na viabilização de um Orçamento de Estado que eles próprios consideram mau, irá deparar-se com a mesma situação revista e aumentada se persistir no erro de confiar neste Governo e nos especialistas do costume, que sugerem remédios mas em devido tempo não evitaram a doença. Contudo, se se organizar devidamente, a iniciativa privada poderá trazer grande desenvolvimento mesmo dispondo apenas de recursos limitados quando comparados com os desperdícios públicos.

Transformar cada português num micro-empresário é uma fantasia que gera empresas sem dimensão mínima sustentável e para a qual a generalidade das pessoas não tem vocação. Se excepcionalmente há nichos de mercado que se exploram com sucesso (por exemplo a oferta de alguns produtos de luxo para o mercado externo, numa estratégia se calhar inspirada em Robin Hood), a crise é a altura adequada para promover a racionalização da oferta destinada ao cidadão comum, cada vez com menor capacidade de consumo e de endividamento. As agora inúmeras iniciativas de fomento do empreendedorismo dão alguma formação aos promotores mas falham sistematicamente na componente de angariação de investidores com capital próprio. Falta mesmo a “massa crítica”...

Neste contexto, insisto no excepcional potencial social e económico da reabilitação do miolo das cidades, tendo como destino o arrendamento. Se queremos alcançar bons resultados, devemos associar-nos para agregar competências complementares. Aplico a receita a mim próprio: conheço bem o centro do Porto e continuamente me perguntam por locais para lá residir ou trabalhar. Por isso, se têm capital para investir na criação conjunta de projectos mais sólidos e mais bem remunerados do que aquilo que os bancos hoje em dia propõem, contactem-me. Contactem-me mesmo.

(publicado no JN de 2010/10/21)

2010/10/08

Eles vão mudar de casa

Dizem que é um apartamento no Centro Histórico. Que vou ser vizinha do Bispo, dos traficantes da Bainharia e do Mercado de São Sebastião.

Comecei a desconfiar quando eles desarrumaram tudo. Livros no chão, móveis desmontados, idas ao Ikea, tralhas no carro ao fim de semana. Fiquei preocupada quando chegou a encomenda de um saco para transporte de gatos e ele me convidou a experimentá-lo “para me ir habituando” e me avisou de que passaria a viajar de metro. Mas enfim, se ele e ela se meteram em mudanças...

Dizem que é um apartamento no Centro Histórico. Que se chega lá por escadas, que me vou divertir na janela a ver gaivotas, barcos no Douro, turistas a fotografar da ponte com inveja por haver gente a morar num sítio daqueles. Que vou conhecer cheiros novos, sentir o vento soprar mais forte e ouvir ao fundo, lá em baixo, a animação na Ribeira. Que vou ser vizinha do Bispo, dos traficantes da Bainharia e do Mercado de São Sebastião.

Espantou-me tal novidade ante a ameaça de sermos roubados pelo Estado com mais e mais impostos, mas afinal eles até poupam porque ainda apanharam o tempo em que os bancos julgavam ser sólidos. Créditos a spread baixo, para 100% ou mais do valor da habitação, secaram o financiamento a outros negócios que não fossem garantidos pela hipoteca de um imóvel supostamente “seguro”. Os bancos continuam sem saber calcular o risco com base no perfil concreto do cliente e nas características específicas da operação que propõe, não apenas nos números que um funcionário despeja no computador sem perceber que cada crédito é diferente. Se o país se afundar, o sector financeiro também não irá escapar...

Eles agora procuram investidores privados (os bancos estão noutra onda) para novas (tantas!) oportunidades de reabilitação destinada a arrendamento no Centro Histórico do Porto. O metro é bom, mas uma gata prefere passeios curtos. Quanto mais amigos e família morarem nas redondezas, melhor.

(publicado no JN de 2010/10/07)

2010/09/24

Roubaram-me a bicicleta

Está certa alguma esquerda quando diz que os salários devem subir apesar da crise, o que ajudará a acelerar o fecho das empresas inviáveis como defende alguma direita sensata

Há cada vez menos diferença entre quem é de esquerda e quem é de direita, pois o disparate e a razão vêm indistintamente do lado a que se afirma pertencer. Apesar de subsistirem diferenças ideológicas adaptadas aos tempos actuais, prefiro uma classificação alternativa: os que sabem ouvir e os que se refugiam nos seus preconceitos.

Saber ouvir leva a reconhecer que está certa alguma esquerda quando diz que os salários (os pequenos e médios, não os grandes) devem subir apesar da crise, o que colocará mais dinheiro a circular na economia e ajudará a acelerar o fecho das empresas inviáveis como defende alguma direita sensata. Já não vamos a tempo de soluções simpáticas, restam-nos as eficazes.

Trabalhadores insatisfeitos são de produtividade medíocre, com a qual não é viável sucesso duradouro. Negócios baseados na mão-de-obra barata são portanto suicidas (insustentáveis) e também assassinos das empresas que propõem preços realistas aos potenciais clientes, pois não sobrevivem ao verdadeiro “dumping social” praticado pela concorrência.

Tem razão alguma direita ao insistir na diminuição drástica do peso do Estado e do défice público, para que não sejam sugados os recursos da iniciativa privada. Tem razão alguma esquerda ao sublinhar a importância do exemplo do Estado para a recuperação da economia, desde que isso implique passar a mostrar competência nas áreas onde o seu desempenho é agora vergonhoso. Quando não se consegue sequer evitar que seja roubada durante as horas de expediente uma bicicleta acorrentada num espaço tão frequentado como a Biblioteca Almeida Garrett, no Palácio de Cristal, é bom que direita e esquerda se interroguem sobre os resultados das políticas que defendem sem o recomendável esforço de compreender as posições dos seus adversários.

(publicado no JN de 2010/09/23)

2010/09/09

Portugal descalibrado

Quando melhorarmos a nossa casa, a nossa rua, o nosso bairro, descobriremos que afinal também temos força para curar o país

Do ponto de vista de cada um de nós, os outros evoluem em média demasiado devagar. A sociedade é sempre mais lenta do que o indivíduo mas, na dose certa, esta inércia é positiva porque filtra aquilo que não resiste ao teste do tempo. Acontece que Portugal está descalibrado, perdeu a noção dos prazos, deixou-se atrasar de forma aflitiva. Por exemplo, hoje é o último dia para Cavaco conseguir terminar o seu mandato com dignidade, mas não vejo significativo desconforto na população com a eventualidade de falhar. Não por causa dele, mas pelo país.

Acabada a ilusão do futebol, não surpreende o desespero de quem está consciente do abismo para o qual caminhamos. Daí que surjam apelos a uma actuação radical (no bom sentido) por parte da Oposição, e em particular de Passos Coelho. Contudo, os dirigentes do partido não são os donos do partido. O PSD, tal como os outros, não é muito diferente do país. E se o país não está convencido de que são precisas mudanças muito profundas, nenhum partido conseguirá implantá-las. A abordagem terá de ser realista em face do que é socialmente aceitável. Eu teria provavelmente ido mais longe na “ousadia” das propostas mesmo sob o risco de alguma incompreensão social, desde que essa “ousadia” não fosse de tal ordem que se tornasse contraproducente. E o risco é mesmo esse.

É preciso envolver a população em acções que tornem evidente o poder individual, quando devidamente organizado e integrado em esforços colectivos. Nada melhor do que a reabilitação urbana, passo a passo, para o provar. Não é o estado da economia que dificulta o progresso, mas sim a deficiente colaboração entre os privados com competências complementares. Quando melhorarmos a nossa casa, a nossa rua, o nosso bairro, descobriremos que afinal também temos força para curar o país.

(publicado no JN de 2010/09/09)

2010/08/27

Meu caro Aníbal

A maneira mais construtiva de terminares o teu mandato é apressares essa mudança no parlamento e, por fim, não te recandidatares

Com a sabedoria da respeitável idade de 13 anos, passo os dias a meditar repousando na travesseira à janela. Arrependo-me de não ter actuado mais cedo, nos meus tempos de juventude. A situação do país é grave e tu não tens ajudado o suficiente. Observo o meu mundo com atenção, possuo o distanciamento conveniente para ver as consequências daquilo que fazes e, principalmente, daquilo que não fazes.

Não basta seres bem intencionado para o exercício das tuas funções ter um efeito positivo. Entre as causas dos problemas nacionais está a maneira como a tua geração pensou que bastaria entregar a Política a um pequeno número de pessoas “credíveis” para haver desenvolvimento sólido. Vindo de uma tradição salazarista, o país quis ser comandado pelo Estado. Só que a sociedade civil não funciona bem quando é comandada. Repara como eu não me deixo dominar nem sequer pelas pessoas aqui de casa, de quem tanto gosto. Isso não impede uma relação muito feliz. Por um lado tenho acesso de qualidade aos serviços indispensáveis - comida e água fresca à disposição, cuidados de saúde quando necessário, habitação confortável, mimos em doses maciças; por outro respeito as regras de convivência, não provoco despesa excessiva, cumpro com grande produtividade a minha missão de dar alegria e bom ambiente à família. Cada um no seu lugar.

Grande parte da tua geração nunca vai compreender que o que está errado não é uma medida ou outra do Governo, é mesmo a forma como se governa. Aquelas pessoas têm de ser substituídas para deixar o país respirar melhor. Por isso a maneira mais construtiva de terminares o teu mandato é apressares essa mudança no parlamento e, por fim, não te recandidatares. Faz como eu: aprende a gozar o conforto de uma mantinha fofa.

Aceita os cumprimentos da FM, uma gata portuense.

(publicado no JN de 2010/08/26)

2010/08/13

Já não há gente normal

Insisto nisto desde 2003: a primeira de todas as prioridades é a Justiça - tribunais a funcionar, leis e regulamentos simples. Não é a Economia nem a Educação.

Um país está doente quando tantos comportamentos irracionais ou insensatos atingem o estatuto de alguma respeitabilidade, como se não fossem apenas merecedores da gargalhada geral. O fim dos chumbos nas escolas porque o apoio extra resolveria as dificuldades (o que acontece nos casos em que não resolve?); a barragem do Tua que poderia afogar o caminho de ferro mesmo sendo ele património classificado; as crianças que são proibidas de usar escova de dentes nos infantários supostamente para evitar a propagação de doenças (será que elas são deixadas ao abandono nos balneários?); a banda gástrica que é recomendada por médicos para “tratar” a obesidade (como se o problema fosse no estômago e não do foro mental!); o PGR que manda mas não manda e continua no lugar.

Este ambiente de doidos quase branqueia outros disparates. Vende-se património estatal porque, ante o descontrolo da despesa, “não há outro remédio agora”; em breve estaremos na mesma situação mas já sem nada para vender. Recomenda-se baixa de salários como remédio para a fraca produtividade; por este andar recorre-se a trabalho escravo para salvar a economia.

Insisto nisto desde 2003: a primeira de todas as prioridades é a Justiça - tribunais a funcionar, leis e regulamentos simples. Não é a Economia nem a Educação. Deixamos de mudar o que é realmente grave (estrutural) para correr atrás do que é apenas agudo. Sem a Justiça o resto não é suficiente, mas com ela a sociedade civil já tem as ferramentas para obrigar o Estado a curar-se.

Passos Coelho, que não é dono do PSD nem representado pelos seus colaboradores, constrói a alternativa a Sócrates e, entretando, tenta impedir as asneiras mais dramáticas do Governo. O Presidente da República é que já devia ter dissolvido este Parlamento que gerou um Governo moribundo.

(publicado no JN de 2010/08/12)

2010/07/30

Donos do alheio

Preocupação social sensata não é limitar o máximo que alguém pode ganhar, mas sim maximizar o que recebe o mais desfavorecido

Multiplicam-se as movimentações para conquistar o direito de gerir património alheio. A vários anos de distância, sugerem-se nomes para a presidência da Câmara do Porto, transformada em assunto nacional por causa da corrida perdida da Red Bull; os meios regionalistas nortenhos animam-se com a esperança de que um novo partido, ele sim diferente dos outros, conquiste um nível de governo local; até um respeitado bispo, num entusiasmo reivindicativo, reclama 20% do salário de uma classe profissional muito desacreditada.

Comum a tudo isto é o esquecimento da acção individual a nível privado, empurrando os problemas para os recursos do Estado ou de outrem. Custa-me debater candidaturas a funções públicas sem pensar no projecto em que aí se deverá trabalhar. Custa-me ver um potencial partido esgotar a sua missão na exigência de uma reorganização territorial, quando esse objectivo poderia ser defendido transversalmente dentro das várias forças políticas já existentes. Custa-me “confiscar” 20% seja lá do que for aos políticos, e não também aos engenheiros, aos advogados, aos pescadores, aos membros do clero, ou até aos falsos recibos verdes que Serralves agora acabou por reconhecer. Preocupação social sensata não é limitar o máximo que alguém pode ganhar, mas sim maximizar o que recebe o mais desfavorecido.

Eis um exemplo, não inédito, de uma reunião de esforços que só depende da vontade dos intervenientes: criar um fundo privado de gestão de arrendamentos que vença a relutância dos proprietários em passarem a ser senhorios, garantindo-lhes uma receita segura (mesmo que não muito alta) e isolando-os das imperfeições do sistema de justiça. Vamos acabar por descobrir que, apesar de tudo, ainda temos dinheiro a mais e só quando o perdermos não restará outro remédio senão sermos racionais.

(publicado no JN de 2010/07/29)

2010/07/16

O passo que falta

Não se prejudique o importante por causa do urgente: a deficiente Justiça e o excesso de regulamentação são os principais problemas de Portugal

Contam os evangelhos que certo jovem, cumpridor dos mandamentos, perguntava a Jesus: “que me falta ainda fazer?”. Muitos dos que conseguem que o fim do mês chegue antes do fim do dinheiro estão com a mesma dúvida. Identificam as causas da situação difícil, mas fica a faltar algo: arriscar algum do seu dinheiro (por pouco que seja) em parceria com aqueles empreendedores que têm projectos mas não capital, sem burocracias nem esperar por enquadramentos institucionais, ajudando assim a economia a progredir. Mas param imediatamente antes desse passo. E o país fica adiado.

Ninguém tem obrigação de ser investidor ou empresário. Contudo, todos os recursos são indispensáveis para garantir o futuro do país onde queremos continuar a viver. Alexandre Soares dos Santos citou há dias uma frase notável: "good judgement comes from experience, and experience comes from bad judgement". Compreendo agora, por ter esbarrado neles, muitos dos bloqueios do país; este é um deles.

Por isso fica o desafio a quem tem património disponível: invistam! Apliquem algum do vosso dinheiro e do vosso tempo. Sem essa postura não há desenvolvimento. Um dos males de Portugal é que até aquilo que não é essencial para a sobrevivência nós temos medo de perder; isso impede a criação de riqueza e deixa-nos tolhidos na nossa pequenez. Damos conselhos aos outros, mas eles que arrisquem... No entanto é possível fazer melhor. Seguramente ganha-se mais conhecimento e, principalmente, abre-se o caminho para a recuperação. Se quem possui consciência dos problemas e os meios para agir não tomar a iniciativa, quem o fará?

Nota final - logo que o Governo mude (já não demorará muito), não se prejudique o importante por causa do urgente: a deficiente Justiça e o excesso de regulamentação são os principais problemas de Portugal.

(publicado no JN de 2010/07/15)

2010/07/02

Drogas por via ocular

Leiam-se os comentários que vão surgindo e constate-se como esta visão do paraíso intoxica até mentes habitualmente lúcidas

Duas notícias recentes ilustram bem os males de que Portugal padece. A primeira relatava que só agora se vão tornar obrigatórios procedimentos de segurança tão absolutamente básicos como confirmar o nome do doente numa operação cirúrgica. Já há tempos se tinha concluído que causa frequente de infecções era a falta de hábito de lavar as mãos entre os profissionais (ou nem tanto...) de saúde. Acrescento eu o inacreditável desleixo com que médicos e enfermeiros circulam nos hospitais, entra e sai desde o bar do edifício às zonas de acesso restrito, com o mesmo calçado e bata com que tratam os doentes. Quem assim age não é ignorante. Pelo contrário, é altamente qualificado, com preparação científica mais que suficiente para compreender os riscos que cria por simples preguiça. Preguiça mental. A visão de todos à sua volta a cometerem os mesmos erros deixa-o alienado.

A segunda notícia dava conta da conquista da Cisco (o gigante mundial das redes de computadores) para um mirabolante projecto localizado em Paredes. Garantem os promotores, com a conivência da autarquia e do Governo, que vai nascer ali uma nova cidade altamente tecnológica, “verde” como se impõe, num investimento que atingirá dez mil milhões de euros. 10.000.000.000! Quantas empresas vão lá estar em 2015? Doze mil, dizem eles. Até agora nem um cêntimo dessa fortuna foi desembolsado por nenhum investidor e a Cisco, mais do que investir, propõe-se vender equipamentos e serviços. Muitos. Faz ela bem, é o seu negócio. A Câmara assegura que consegue financiamento para comprar os terrenos. Afinal Portugal é aquele pequeno país onde houve dinheiro para o Magalhães, porque não para isto também? Leiam-se os comentários que vão surgindo e constate-se como esta visão do paraíso intoxica até mentes habitualmente lúcidas.

(publicado no JN de 2010/07/01)

2010/06/18

A culpa é da beldroega

Em vez de protestar contra o pagamento nas SCUT devíamos mudar de casa para passar a habitar perto do emprego

Portugal às vezes é de compreensão lenta. Acabou o dinheiro. Aquilo que até agora desperdiçávamos vai ter de ser aproveitado. O uso da inteligência é uma necessidade absoluta, já não apenas conveniência. O mal afecta principalmente algumas “forças de bloqueio”, das quais destaco dois tipos.

O primeiro é constituido pelos pais que dedicam ao futebol uma atenção inversamente proporcional aos hábitos de poupança e rigor que incutem nos filhos em idade escolar. Queixam-se de Sócrates (e com razão) sem consciência de que o imitam, deseducando. Ao segundo tipo pertencem os “investidores” que não investem, “só quando a crise passar”. Claro que o verdadeiro problema deles não é a crise, mas a própria incompetência revelada na incapacidade de perceber onde estão as oportunidades de negócio. Como consolação resta-lhes o bom senso de não arriscar o capital acumulado, pois iriam certamente desbaratá-lo nestes tempos que os transcendem.

Há dias, ao visitar uma horta no centro da cidade, mostraram-me a beldroega, uma planta que eu não sabia identificar. Fez-me recordar os acampamentos em que na adolescência participei com o grupo de jovens a que pertencia, onde aprendíamos a viver com pouco. Ao mudar de ambiente éramos levados a reflectir sobre os recursos de que dispúnhamos, o uso que lhes dávamos, e a nossa quota-parte de responsabilidade na gestão do mundo. E assim, por causa da beldroega, fiquei mais convencido de que em vez de protestar contra o pagamento nas SCUT devíamos mudar de casa para passar a habitar perto do emprego, e que em vez de procurar propostas de bons negócios devíamos investir o nosso tempo a criá-las, e que em vez de lutar pela regionalização contra o Governo podíamos tratar melhor da nossa cidade dando dimensão adequada e ferramentas eficazes às freguesias.

(publicado no JN de 2010/06/17)

2010/06/04

Criativos não-praticantes

As “indústrias criativas” não existem. O que existe é criatividade nas indústrias, e nos serviços também.

A minha paciência para teoria sobre “indústrias criativas” já se esgotou. As “indústrias criativas” não existem. O que existe é criatividade nas indústrias, e nos serviços também. Há um ano escrevi sobre a ameaça dos “encarregados de educação” do empreendedorismo alheio que não arriscam eles próprios criar o seu negócio, sublinhando que criatividade passará pelas novas modas digitais mas também por necessidades como reabilitação urbana, apoio social, funcionamento da justiça, simplificação de regulamentos...

Não haverá criatividade que chegue para fazer baixar o estacionamento automóvel irregular? Nenhuma alma inventiva descobrirá maneira de aproveitar os espaços urbanos com capacidade agrícola? Com tantos desempregados ociosos, ninguém conseguirá organizar acções (ao menos de voluntariado) onde eles tenham interesse em ser úteis? A desocupação e degradação do edificado dos centros urbanos é um problema complexo demais para estas “indústrias”? Uma cidade não passa a ser atractiva pelo facto de haver animações avulsas do espaço público, umas vezes bem conseguidas, outras nem por isso. Nem se provoca impacto económico sensível no país com mais meia dúzia de micro-empresas ou associações temáticas sem nenhum potencial para atingirem grande dimensão.

A inovação está provavelmente muito mais no talento para pegar em ideias simples (se calhar já antigas e por isso pouco "fashion") que sejam eficazes. Ou seja, a capacidade criativa tem de estar embebida na economia “normal”, nas relações sociais, nas nossas rotinas, e não num mundo à parte onde mentes iluminadas lançam ideias para outros eventualmente colherem. Neste contexto, vale a pena medir os resultados da acção de entidades como a ADDICT. A criatividade chegou ao menos para estabelecer critérios de avaliação? Divulguem-se.

(publicado no JN de 2010/06/03)

2010/05/21

Sociedade instantânea

Uma instituição milenar como a Igreja Católica compreende bem que há tempo para além do nosso tempo

Tenho defendido que os principais problemas do país são um sistema de justiça anedótico, leis e regulamentos perfeitos para sabotar uma vida normal em sociedade, e também o peso mastodôntico do Estado. Receio agora ter de acrescentar mais um: o facto de não se dar tempo ao tempo. “Devagar, que temos pressa.”

Vivemos num mundo que aspira a ser instantâneo, movido por acções de efeito imediato. Desesperados com as contrariedades, perdemos a persistência junto com a paciência. Concentramo-nos no presente, no território próximo, nas pessoas conhecidas. Daniel Innerarity esta semana em Serralves, numa convergência (aparentemente sem que ele se tivesse apercebido disso) com a visão do mundo de Bento XVI, referia o “triunfo das insignificâncias”, a “tirania do presente”, a “expropriação do futuro” que fazemos às gerações vindouras na ausência de quem as defenda. Sugeria ele então uma “colectivização intergeracional do tempo”, estendendo a atenção do nosso próximo (no sentido bíblico) também ao “nosso longínquo”. Uma instituição milenar como a Igreja Católica compreende bem que há tempo para além do nosso tempo.

Não podia este tema vir mais a propósito da situação de Portugal. Perante um Executivo moribundo, devemos ter a prudência de recusar um amanhã que hipoteque o depois de amanhã. Há um tempo para ajudar o Governo e um tempo para substituir o Governo. Cada coisa a seu tempo. Os efeitos de curto prazo nos mercados internacionais, perante um sufoco de tesouraria do país, recomendam até um aumento de impostos. Por uma vez, acredito nos especialistas. Mas não me vou esquecer de lhes lembrar que esse aumento é temporário porque temos pressa do futuro que ainda não houve tempo de construir. Deixemos a tempestade financeira acalmar. Vai ser aí que o Governo termina o seu tempo.

(publicado no JN de 2010/05/20)